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06 de junho de 2018 | 02h 18
Economista Cleide Martins traz o tema: políticas públicas e seus muitos significados
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Cleide Martins
cleideamartins@gmail.com
Publicado por: Cleide Martins

Cleide Martins escreve a coluna de Economia no JC, todas as QUARTAS. Cleide Aparecida Martins Barillari é economista, cientista social, professora universitária. Especialista em Economia Brasileira e Mestre em Educação.

 

Em sua coluna a economista traz o tema: políticas públicas e seus muitos significados​

Todos os dias, alguém, em algum lugar desse Brasil, afirma que são necessárias POLÍTICAS PÚBLICAS para resolver quaisquer problemas da sociedade brasileira. É tão fácil utilizar essa expressão que, na verdade, ela cabe em qualquer “pacote”: políticas públicas para a educação, para resolver o problema da moradia, ou o problema da (IN)segurança pública, ou do jovem deprimido, ou do desempregado desalentado, ou do idoso sem família... TUDO se resolve com políticas públicas. Isso, na prática, chega aos ouvidos do brasileiro como um indicativo de que seus problemas serão resolvidos pelo GOVERNO. Mas, e quando o ESTADO não está ali para resolver os seus problemas? Como fica essa equação?

Muitos dos que compõem a geração que hoje está entre os cinquenta e sessenta anos, recebeu uma educação familiar diferente. Essa geração é fruto daquele povo que morava “na roça”, significando que, para progredir, tinha que se mudar para “a cidade”. Lembrando que, naquela época, a maior arte da população brasileira vivia no campo (cerca de 85% da população brasileira – com um percentual de analfabetismo nas alturas – hoje é, praticamente, o inverso).  O progresso, efetivamente, não estava “na cidade”, mas no que ela representava naquela época. Representava um rumo à atividade assalariada, à formação educacional mais ampla, uma universidade, talvez, como um grande sonho para a maioria.

No entanto, carregava-se uma certeza, que vinha do berço – o seu futuro dependeria das suas conquistas, do seu trabalho, da sua dedicação. Era a meritocracia no ambiente familiar que aflorava muito cedo, visto que aquelas “crianças” deveriam saber logo sobre o que era ter responsabilidade. E hoje? As pessoas querem a liberdade para fazer suas escolhas, mas não querem a responsabilidade sobre as consequências dessas escolhas. Então, pratica-se a arte da espera. Ouve-se muito: “estamos esperando as AUTORIDADES aparecerem para resolver o problema”. Esta autoridade que o cidadão brasileiro espera que resolva o problema é o ESTADO.

Os exemplos não faltam. Enquanto aqui no Brasil, em 2011, ocorria o deslizamento de encostas na serra fluminense (Nova Friburgo, Teresópolis e outras cidades da região), no Japão, um grande terremoto, seguido de tsunami, varria a costa Nordeste do país. Passado um ano da tragédia, uma reportagem, da época, resolveu revisitar as respectivas regiões para apurar as condições. Na serra do Rio de Janeiro, a lama que havia descido das encostas e coberto parte das cidades, continuava lá. Os moradores davam entrevistas dizendo que “aguardavam as autoridades para resolver o problema e que até os recursos financeiros destinados à solução dos mesmos haviam desaparecido”. Enquanto isso, no Japão, tudo estava na mais perfeita ordem. Os japoneses, no dia seguinte à tragédia, se uniram para limpar suas casas, suas ruas, suas praças, suas cidades. Assumiram, cada qual o seu papel, para “limpar”, literalmente, “a sujeira”. Cidadãos e governo.

De volta ao cerne da questão, chegamos em 2018, com o cidadão esperando o GOVERNO “resolver os problemas”. Qual não é a surpresa de se observar que o contingente de brasileiros à espera do ESTADO SALVADOR cresceu. Cresceu junto com a Constituição de 1988 (CONSTITUIÇÃO CIDADÃ): aquela mesma que entregou DIREITOS a todos e os DEVERES ao GOVERNO. Está aí uma geração inteira esperando as autoridades. E os “especialistas de plantão” são, praticamente, unânimes em afirmar que as autoridades devem adotar POLÍTICAS PÚBLICAS para resolver “o problema” seja lá o que for. Em tempo, basta prestar atenção às respostas dos chamados “especialistas” em qualquer assunto que dão entrevistas, no calor de mais um acontecimento visto como trágico.

Utilizando de mais um exemplo, pode-se trazer o de uma pessoa que decide “não ter filhos” nesse “mundo de hoje”. O que, aliás, tem crescido como debate (é direito da mulher e do homem, também, ter ou não filhos – muito justo, por sinal), uma vez que os DIREITOS de escolha são para todas as pessoas. O tempo passa, a pessoa que, na juventude, decidiu não ter filhos envelheceu. Pois é: a expectativa de vida no Brasil vem crescendo (assim como acontece e aconteceu no Japão, por exemplo) e a população de idosos idem. E já tem muitos estudiosos afirmando que TODOS os setores terão que se adequar à esta nova realidade. E os trágicos de plantão logo vão gritar que é preciso novas POLÍTICAS PÚBLICAS para resolver o problema dos idosos. Pois é, mas esse idoso sozinho, escolheu não ter filhos quando era jovem. Fica aqui a dica: é só para exemplificar e não para debater (ainda não).

O brasileiro agora vive a sua vidinha de esperar que as POLÍTICAS PÚBLICAS resolvam aquilo que ele NÃO PODE PREVER, como consequência das suas próprias escolhas no exercício pleno dos seus direitos, já que os deveres são dos outros. O próximo eleito será o que se espera dele: o próprio SALVADOR DA PÁTRIA amada idolatrada, salve, salve! Aí eu faço minhas as palavras de Clóvis de Barros, em vídeo no youtube, cujo título: Uma sociedade que perdeu completamente a noção de dignidade: “conviver mais justo... o tema ética ficou no limbo... E aí quando a torcida japonesa, na Copa do Mundo de 2014 , limpa o estádio antes de ir embora, o brasileiro acha estranho. De repente, parece que esses japoneses tiveram educação...” Vale a pena ouvir o que ele fala sobre a sociedade brasileira e eu concordo em gênero, número e grau.

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