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07 de março de 2018 | 13h 21
Cleide Martins aborda os aspectos econômicos da violência no Brasil na coluna Economia
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Cleide Martins
cleideamartins@gmail.com
Publicado por: Cleide Martins

             

Cleide Martins escreve a coluna de Economia no JC, todas as QUARTAS. Cleide Aparecida Martins Barillari é economista, cientista social, professora universitária. Especialista em Economia Brasileira e Mestre em Educação.

 

Em sua coluna a economista traz o tema Aspectos econômicos da violência no Brasil​:

Segundo um estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), publicado em 2014, o Brasil é o campeão em custos relacionados à violência na América Latina. De um total de cerca de US$172 bilhões para toda a América Latina, o Brasil “contribuiu” com cerca de US$91,38 bilhões. Mais que todos os outros países somados. O estudo levou em conta diretamente os gastos com segurança pública e privada e, de maneira indireta, incluiu a não geração de renda por parte dos detentos do nosso sistema prisional. Esse valor se referia, na ocasião, a 3,78% do PIB brasileiro. Praticamente o mesmo valor previsto para investimentos em infraestrutura naquele ano. Não é pouca coisa.

No entanto, se formos calcular todas as implicações decorrentes da violência em nosso País, a conta se torna exorbitante. Imaginemos a hipótese de somarmos a esses cálculos os custos para a área da saúde. A violência contra as pessoas de forma direta, que levam muitos a hospitais, como agressões físicas, tentativas de homicídio, violência ambiental, no trânsito, dentre outras mais, que obrigam as pessoas a buscarem socorro no sistema único de saúde (e também o sistema particular). A quantidade de internações, decorrentes das falhas na segurança pública e privada, somada à quantidade de medicamentos e pessoas envolvidas nessa realidade cruel do Brasil torna essa conta cada dia mais pesada e o atendimento aos cidadãos no cotidiano vai sendo postergado.

Outro aspecto, que não foi somado pelo BID, se refere aos custos da violência que recaem sobre a previdência social. Quando o trabalhador é afastado, deixa de produzir, deixa de gerar renda, para sobreviver da cobertura do sistema previdenciário. Pode ser afastado temporariamente ou definitivamente. No último caso, aposentadoria precoce por invalidez. Vamos calculando aí e imaginando como esse custo pode crescer e cresceu muito nos últimos tempos.

Outra questão importante e trágica está relacionada às mortes prematuras, haja vista que nessa “guerra” em que vivemos, os jovens são grande parte das vítimas. Perder um jovem prematuramente, pela violência, significa perder um trabalhador que poderia contribuir fisicamente e/ou intelectualmente para o desenvolvimento econômico. Um jovem que perde a vida aos 20 anos, numa região onde a expectativa de vida é de 76 anos, vai significar que ele deixou de contribuir economicamente por 56 anos. Segundo dados do ano de 2017, a violência fez cerca de 60.000 vítimas no País e a conta da violência cresce cada vez mais.

Hoje em dia, com a crise econômica e de segurança pública que se abateu sobre o Brasil, fica fácil imaginar o tamanho das perdas. Nos últimos três anos nosso PIB vem encolhendo e a violência crescendo. 2018 é um ano ímpar para a economia brasileira. Precisa voltar a crescer e, ao mesmo tempo, enfrentar o problema grave da violência que não se restringe somente ao Rio de Janeiro. Uma Intervenção Federal não é brincadeira. Essa Intervenção obriga a União a deixar de lado uma série de prioridades econômicas, como a reforma da previdência, a reforma tributária, a reforma política, dentre tantas reformas que o País necessita para reencontrar o rumo do crescimento econômico. Nós recuamos, praticamente, duas décadas em termos econômicos com a crise. Com a Intervenção Federal na segurança pública do Rio de Janeiro, nós tendemos a estagnar no passado por mais um tempo, uma vez que reformas de cunho constitucional não podem ser votadas em situação de Intervenção.

Logo, temos aí mais um componente para o atraso na busca para as soluções econômicas para o Brasil. Com essa realidade, o custo da violência se torna impossível de ser mensurado. A violência está levando embora os recursos para os investimentos imprescindíveis na esfera econômica do ponto de vista da infraestrutura, mas, também, está levando embora os brasileiros essenciais para o futuro do Brasil: que são os jovens. Esse País é muito rico, mas de onde só se tira e nada se acrescenta, uma hora acaba!

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