Tempo em
Uberaba

27 de março de 2015 | 10h 39
Filipe Neri relata caso de xenofobia na Irlanda
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Filipe Neri
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Publicado por: Filipe Neri

Coluna do Filipe Neri: toda sexta-feira no portal JC

Outra forma textual que gosto muito de escrever é a crônica, cuja narração é baseada em fatos que acontecem no nosso cotidiano. Todos já devem ter lido alguma crônica em algum momento. Elas estão presentes em jornais, revistas e livros. É um texto que utiliza a sátira, a ironia, a exposição de sentimentos, a linguagem coloquial evidenciada nas falas das personagens e, principalmente, faz uma reflexão sobre determinado assunto.

Esta crônica escrevi para o livro “O espaço como intérprete do tempo – crônicas das geografias do Triângulo Mineiro”, organizado pela minha ex-professora Amanda Regina Gonçalves, da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), desenvolvido pelo Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência.

Capa do livro de crônicas. Foto: arquivo pessoal

Quando vocês terminarem de ler, provavelmente se perguntarão: “Nossa, mas, será que de fato aconteceu isso com ele?”. Sim, eu relatei um grande problema que persiste praticamente no mundo todo. Estamos sujeitos a passar por ele quando viajamos para outro país ou até mesmo outro estado ou cidade. Infelizmente aconteceu comigo. No texto relato uma única vez essa terrível experiência. Mas, me lembro de vivenciar isso em outras ocasiões. Em Dublin, Irlanda, por exemplo, aconteceram outras vezes. 

Quero deixar bem claro que o problema relatado na crônica não é exclusivamente da cidade em questão, no entanto de vários lugares do planeta. Mesmo sabendo que acontece isso em Dublin, eu tenho muita, mas, muita vontade mesmo, de voltar para essa cidade, que amo tanto.

Boa Leitura!

Ilustração: https://fernandonogueiracosta.files.wordpress.com/2012/05/imigrantes-europeus.jpg

O outro lado

Quando cheguei ao Dublin Airport, na capital da Irlanda, por volta das 3 horas da madrugada, a fim de esperar o voo para Paris, que estava marcado para às 7 horas da manhã, fui logo dar uma volta para conhecer melhor o local e também para passar o tempo, já que a espera seria consideravelmente longa.

Por volta das cinco horas da manhã, fui tomar um café, num fast food ali mesmo, dentro do aeroporto. Logo que peguei o que iria comer, procurei sentar-me em uma das mesas próximas dali. Ao olhar para frente, do outro lado, havia um senhor que parecia também estar à espera de algum voo. 

A maioria dos senhores e das senhoras que conheço caracterizam-se por terem cabelos brancos, movimentos lentos, com atitudes bondosas, e boas histórias para contar aos mais jovens. Logo que vi aquele senhor, sentado no banco do aeroporto, lembrei-me dos altos papos com o meu bisavô, nas tardes calmas em Minas, e de seus traços e perfil que se tornaram minhas referências para o que entendo por idoso. Por isso sentei-me próximo àquele senhor, ele era muito parecido com vovô Guimarães. E então, comecei a saborear o meu delicioso desjejum. 

Mas, de súbito, o seu olhar em minha direção desconstruiu em segundos tudo aquilo que me fez aproximar-me dele. Sem que eu encontrasse uma justificativa, ele encarou-me com uma expressão facial de fúria, com um visível e inexplicável ódio e, em seguida, começou a esbravejar:

– Terrible, terrible, terrible, terrible...

Terrible. Ilustração: Glefferson Cristiano Silva de Faria (Gless)

Sozinho e num país desconhecido, aquilo tomava uma dimensão ainda mais grave. Com aquela atitude, toda a concepção de que pessoas idosas são boas e carinhosas, foi por água abaixo. Naquele momento, assustado e tremendo de medo pelo ataque de fúria daquele homem, pensei em sair correndo, gritar, fugir, mas estava tão perplexo, que fiquei sem ação.

No instante seguinte, voltei-me a mim mesmo e pensei: – O que tem de terrível em mim? Será que estava fazendo alguma coisa errada? Será que estava no lugar errado? Será que a minha roupa estava inadequada?

Após alguns minutos lembrei-me. Antes de ir para Dublin, havia lido em algumas reportagens e sites da Internet sobre ataques xenofóbicos e sobre as características das pessoas que os praticam. Porém, não pensava que era tão ruim ser vítima desses ataques e que eram praticados por pessoas de todas as idades. 

A princípio, não consegui obter uma boa resposta para aquela atitude e, como fui procurando manter o controle, pensei novamente em levantar-me e sair dali correndo.

Recado do Duende Irlandês para o mundo: “Diga não a Xenofobia”. Fonte: http://4.bp.blogspot.com/-iBUMJdw99yA/T2e5HhNcf4I/AAAAAAAAVug/nPO79aV8XRY/s1600/st-patricks-day.jpg

A minha sorte foi que, naquele instante, surgiram ali, na minha frente, uns amigos avisando-me da hora do embarque. Sentindo-me um pouco mais aliviado, protegido acompanhei-os para o nosso passeio em Paris.

Passados alguns dias, aquela situação ainda ocupava minha mente. Será que agi corretamente? O que levou aquele senhor a ter aquelas atitudes em relação a mim? Talvez o motivo pudesse ter origem em problemas passados, como ter vivenciado alguma má experiência ao estar exposto a uma situação desconhecida que gerou terror e deixou marcas, que interfeririam até hoje em sua personalidade, ou talvez, pelo fato de ele não saber que eu estava ali somente com o objetivo de conhecer um pouco mais sobre a cultura do país e de aprender melhor a língua dele. Ou ainda, talvez se tratasse de um dos europeus com medo de perderem seus postos de serviço para estrangeiros, devido à grande e recente crise econômica, o que tem feito com que o número de ataques xenofóbicos esteja aumentando. Ou ainda, talvez nenhum destes fatores seja os que mobilizaram aquele senhor, mas algum outro desconhecido por mim.

Independentemente das causas, é fato que aprendi coisas que não estavam previstas nesta viagem. Senti o quanto é ruim sofrer a xenofobia, portanto aprendi que não se deve fazer isso com ninguém, e muito menos passar adiante, ou seja, para os meus filhos, netos ou amigos. Foi bom ter passado por essa experiência inesperada no exterior, para que eu pudesse me ver no lugar do “outro”.

Fonte da crônica: NERI, Filipe F. O outro lado. In: O espaço como intérprete do tempo: crônicas das geografias do Triângulo Mineiro / Amanda Regina Gonçalves, organizadora. Uberaba: UFTM, 2014. Pág. 33-37.

Por um mundo sem xenofobia, ou qualquer outra forma de preconceito/ Fonte: http://k09.kn3.net/taringa/3/6/1/9/4/6/1/mondirengo/907.jpg?9513

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