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24 de outubro de 2019 | 16h 10
Sobre “TER QUE”
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PUBLICADO POR
Luísa Cunha
luuisacunha@gmail.com
Publicado por: Luísa Cunha

Luísa Cunha Oliveira escreve a coluna de Bem Estar & Saúde no JC e é Psicóloga Clínica formada pela Universidade de Uberaba. Atua na abordagem análise transacional com ênfase em relacionamentos interpessoais e transtormos relacionados a fase adulta.

Em sua coluna ele traz o tema - Sobre “TER QUE” 

Não é muito difícil entender porque a maioria das pessoas só acham que vão se sentir completas se conseguirem um bom emprego (na área), casar-se e adquirirem a casa própria.

Essa cultura meritocrática, moralista e de que “ninguém é feliz sozinho”, chega a me tornar doente, tanto quanto me faço saudável por me questionar todos os dias; “PORQUE?” Observo atenta o quanto o adulto, e principalmente, nós mulheres, somos envoltas de cobranças. Quando a pergunta não é voltada para o término da faculdade, os questionamentos se voltam para “Cadê o namorado?”, “O que há de errado com você, afinal?” É quase como se perguntassem: “Porque ninguém te quer ou suporta?” O que as pessoas não querem entender é que: é ok não estar em um relacionamento! Mas as cobranças não param por aí. Quando a faculdade está terminada, o emprego vai bem e o relacionamento está estável começam os: “Mas será que já não é hora de vocês se casarem?” Como se não bastasse, após o casamento pode se preparar pra responder: “Já pensam em ter neném?”, “Mas não vai ficar muito tarde pra ser mãe se ficar deixando pra depois?”

Eu não sei se você leitor, consegue me imaginar suspirando fundo, revirando os olhos e dando um riso debochado, mas é isso que eu estou fazendo agora! Culturalmente falando, teoricamente, o padrão de vida perfeito e feliz, nada mais segue com respostas maravilhosas pra todas as perguntas. Na ponta da língua, assertivas e concretas. E tudo bem pra quem quer viver assim. O angustiante é pensar que tem gente que só faz isso tudo pra ser notado, reconhecido. O problema dos outros, que cobram que nós sigamos um padrão, é não ter uma vida pra cuidar, sei lá... Talvez o mais certo deva ser só deixar quieto, e tudo bem que perguntar não ofende, não mesmo, eu só acho que existem jeitos e jeitos de fazerem certos questionamentos, e outros são no mínimo, um pouco invasivos.

Afinal, porque é que a gente tem que crescer, porque é que a gente tem que fazer faculdade, porque a gente tem que se formar, se casar com quem papai e mamãe aprove, depois porque é que a gente tem que ter filho logo, depois mais um, colocar em boas escolas e ser parabenizado(a) porque o Enzo tirou dez na Olimpíada da Robótica e a Valentina se destacou por bom comportamento...? Que diabos é essa besteira de “ter que” e o quanto isso faz a gente seguir um padrão, sem nem entender o porquê de estar seguindo ou se é isso mesmo que queremos...? Quando me pego pensando sobre isso concluo que a doença do brasileiro é “ter que”!

Sabe, não venho aqui levantar a bandeira da rebeldia, mas é saudável se questionar sobre pra onde de fato queremos ir. Até que ponto queremos chegar a certos lugares para sermos aprovados?! E sobre ser aprovado pra nós mesmos?

Afinal, pra onde foi toda aquela espontaneidade? E quanto ao que a gente tem vontade de fazer...?  O que nos faz achar que alguém que pede no sinal quer ser como nós? Nada como a cultura invasiva e autoritária nos dizendo novamente o que fazer! O que é normal, o que deixa de ser... E tudo bem ser padrão e fazer tudo de fato culturalmente aceito, mas que não deixemos nunca de nos perguntar se é isso mesmo que queremos pra NÓS e não pra mostrar pra ninguém.

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