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08 de setembro de 2019 | 16h 49
A crônica do pássaro
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PUBLICADO POR
Luísa Cunha
luuisacunha@gmail.com
Publicado por: Luísa Cunha

Luísa Cunha Oliveira escreve a coluna de Bem Estar & Saúde no JC e é Psicóloga Clínica formada pela Universidade de Uberaba. Atua na abordagem análise transacional com ênfase em relacionamentos interpessoais e transtormos relacionados a fase adulta.

Em sua coluna ele traz o tema - A crônica do pássaro​

Estava eu, no auge dos meus treze anos. Aquelas eram as minhas últimas férias na cidade de Uberaba. Assim que se iniciassem as aulas estaria eu em uma nova escola, com novos amigos, em uma nova cidade (graças a promoção que meu pai recebera), em uma nova série! Se eu estava como medo? Obvio que não. Afinal, deixar meus amigos na cidade em que eu crescera, ir para outro estado e começar tudo do zero, onde eu não conhecia ninguém, não me causava nenhum desconforto!

A maior parte daquelas férias eu passei inutilmente deitado no sofá pensando em como seria quando as aulas começassem. A maior parte dos meus amigos viajara depois da minha festinha de despedida e lá estava eu, sem me interessar por mais nada, com um monte de indagações dentro de mim. Os adultos dizem que a idade dos treze anos é a idade da “aborrecência”. É, acho que essa é uma das poucas coisas em que concordamos. O que nenhum adulto entende é que eu tinha os meus motivos.

Talvez a gente, que ainda se dá o luxo de ser criança, ou melhor: criança pra umas coisas e “muito grande pra outras”, tenhamos mais permissão pra demonstrar o que sentimos. Os dose, treze, sei lá quantos anos da adolescência, são mesmo aborrecentes, e quer saber mais?! Eu acho que a vida inteira é, e a maioria dos adultos se faz de hipócrita pra se “encaixar”. Afinal, vai dizer que um adulto que tem que trabalhar, pagar conta, aguentar mulher chata e mais um monte de outras obrigações é feliz?! Eu pelo menos sou autêntico com o que eu sinto! E o que eu sinto é uma grande frustração.

- Filho, filhôôô, ajuda a mamãe a colocar a mesa do café da tarde. Os pratos estão no escorredor, já já as convidadas da mamãe vão chegar.

“Convidadas, ham”, pensei com deboche. Não entendia porque a minha mãe ainda insistia em chamar aquelas pessoas lá pra casa. Sempre que eu observava as conversas delas parecia uma competição pra decidir quem tinha os filhos com a melhores notas, o marido mais carinhoso, o rosto mais bonito e o corpo mais dia com os padrões das revistas. Eu nunca vou entender esse lance de competição na amizade.

Para minha surpresa naquele dia, mamãe não estava preocupada com se arrumar depressa e deixar tudo perfeito pra primeira convidada chegar. Enquanto eu colocava a mesa ela passou pela porta que ficava entre o quintal e a cozinha com algo em suas mãos, e disse:

- Filho, veja só, um bebê pássaro. Acho que ele caiu do ninho e está machucado!

Ela abriu as mãos e lá estava o pequeno ser vivo. Olhos esbugalhados. Peito se movendo rapidamente como se o ar não fosse suficiente, uma das asas parecia quebrada e ele mal se movia.

Observei por alguns instantes aquele pássaro assustado e depois peguei-o em minhas mãos. Minha mãe foi em direção ao armário e pegou uma pequena seringa, encheu de água. Se direcionou aos fundos e pegou alguns panos, colocou-os em cima da mesa do lado de fora como em uma espécie de ninho e disse:

- Veja, fiz uma caminha para ele. Coloque-o aqui.

Fiz o que ela pediu, a essa altura já esquecendo da mesa do café e das convidadas. Em seguida minha mãe deu a água da seringa para o pássaro. Logo menos ele pareceu se acalmar. No entanto uma tristeza me invadiu quando eu percebi que ele não viveria muito tempo.

Era um dos dias mais quentes de janeiro e eu senti pena por ele ter caído do ninho justo naquele dia. Num instante de devaneio me peguei pensando nos irmãos e na mamãe pássaro. Refleti na grande quantidade de coragem que os pássaros precisavam ter pra saírem de seus ninhos. Voar me parecia realmente maravilhoso, mas cheio de desafios. Pouco a pouco o pássaro foi cerrando os olhos, se aquietando após ingerir a água fresca manuseada por minha mãe.

Logo menos o interfone tocou e as convidadas de minha mãe começaram a chegar. Ouvi de longe os cumprimentos enquanto minha mamãe me deixara lá, com aquele pássaro. Eu só tinha olhos para ele. De um jeito maluco me senti saindo do ninho de minha casa pra apoiar o meu pai. Me senti encerrando ali uma vida que tinha sido incrível com os meus colegas da escola, amigos desde o maternal. Me senti despedindo por fim de uma vida boa, pra voar com os meus pais em direção a uma vida melhor.

Duas grossas lágrimas caíram dos meus olhos e observei o pássaro morrer. Morreu comigo. Pelo menos após sentir sabor da água fresca e se deliciar com um pouquinho de sombra. Limpei os olhos, depressa quando ouvi mamãe me chamar.

Voltei pra realidade quando me vi na cozinha com as amigas de minha mãe, fazendo aquela típica pergunta “E você, já decidiu o que vai fazer quando for mais velho?”

Respirei fundo e disse orgulhoso:

- Eu vou cuidar de bicho!

Olhei pra minha mãe e ela sorriu com os olhos, como quem queria dizer “Voe!” 

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