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27 de agosto de 2019 | 01h 09
Pra que esse tolice de psicólogo?
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PUBLICADO POR
Luísa Cunha
luuisacunha@gmail.com
Publicado por: Luísa Cunha

Luísa Cunha Oliveira escreve a coluna de Bem Estar & Saúde no JC e é Psicóloga Clínica formada pela Universidade de Uberaba. Atua na abordagem análise transacional com ênfase em relacionamentos interpessoais e transtormos relacionados a fase adulta.

Em sua coluna ele traz o tema - Pra que esse tolice de psicólogo?​

Estava eu, em mais um almoço de família quando começaram as indagações: “E o trabalho...?” Iniciou um dos tios, e antes que eu pudesse responder; perguntou mais alguém; “Psicólogo faz o que?”, ainda antes de mais nada, uma outra pessoa na mesa debochou: “Eu chego lá e falo o quê?!”. Depois mais outras e outras afirmações do tipo; “Eu não preciso disso! Deus me livre de alguém pra me falar o que fazer!” E não sendo suficiente, ainda precisei ouvir; “Ah, tem dó?!, Pra mim esse negócio de psicologia é tudo frescura! Jamais pagaria alguém pra conversar!”

Afinal, quem melhor do que eu, ali naquele ambiente, pra explicar o que faz um psicólogo não é mesmo?! Mas também, onde estavam a minha calma e paciência pra explicar as coisas sem a mínima pontada de ironia, do jeito que minha família merecia?

Respondendo as milhões de perguntas: “Psicólogos podem se encontrar trabalhando em várias áreas; jurídica, organizacional, hospitalar, clínica, educacional...” Diria eu impaciente! “Eu trabalho na área clínica e ouço milhares de “frescuras” de mulheres que apanham caladas dos maridos por não terem recursos internos para saírem de uma relação abusiva. Ouço “frescuras” de pessoas que não passam em concursos por se auto sabotarem das maneiras mais inconscientes possíveis e ouço relatos de pessoas que sofreram violências severas demais para levarem sozinhas isso ao longo da vida! Ouço também “frescuras” relacionadas a falta de amor maternal, abando e rejeição! Trabalho com pessoas que chegam ao meu consultório quebradas, fraturadas, violentadas e querendo desistir, e mesmo assim continuam de pé! E ainda por cima, nós, psicólogos, trabalhamos tudo isso no passo de cada qual tentando encontrar junto do paciente uma maneira de sair de um beco escuro sem intervenção medicamentosa (até que se apresente necessidade extrema).

Pra quem perguntou, chega-se em um psicólogo e não se consegue dizer nada porque o choro não deixa. Distrai-se as coisas mais fúteis e inimagináveis, porque olhar pra dentro de si é doloroso! Ou então muda-se de assunto sem perceber e também sem responder as perguntas que o psicólogo fez por ser difícil demais pensar nelas! Chega-se a um psicólogo dizendo que foi obrigado pela família, que não se aguenta mais, que se quer terminar com a própria vida ou com a de alguém! Chega-se um psicólogo então, apenas se você quiser e tiver certa maturidade de entender que muito da sua vida não “dá certo” ou não é do jeito que você quer, por uma parcela (grande) de responsabilidade sua! E por gentileza, não espere que ele (o psicólogo) lhe diga exatamente o que fazer! Chegam a psicólogos pessoas inconstantes, submissas, apaixonadas, insatisfeitas e com vontade e auto cuidado o suficiente para dedicar 50 minutos, que seja, da sua semana para cuidar da própria saúde mental.

Vão a psicólogos aqueles que vivem doentes, indo a médicos, tendo gastrites nervosas, problemas de pele, dores de cabeça crônica e não “tem nada”, de acordo com o que mostram os exames! Vão a psicólogos aqueles que também cuidaram da beleza, do corpo, da alimentação, ou da saúde física apenas; mas não cuidaram da tristeza e das fraturas da alma engessadas ao longo dos dias e das feridas mal cicatrizadas ao longo dos anos. Bom acho que resumidamente é pra isso que procura-se um psicólogo! Além de tudo; corrigido, não se paga alguém para simplesmente conversar, afinal, se assim fosse, ninguém cursaria cinco longos anos de graduação para então retirar a autorização do Conselho Federal de Psicologia para exercer a profissão! As pessoas simplesmente conversariam e pronto. Problema mais que resolvido! Enfim, não se trata de conversar, mas sim de um Processo Terapêutico e um trabalho responsável e voltado para o inconsciente e o consciente de cada um!”

Ufa, acho que respondi a todas as dúvidas e afirmações desrespeitosas! Todas elas em questão de minutos, apenas dentro da minha cabeça! Foi aí que eu estufei o peito, me ajeitei na cadeira, respirei fundo e disse: “Mas então, a que horas sai o almoço?”, Afinal de contas, é inútil discutir com quem está de olhos fechado pra ver!

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