Tempo em
Uberaba

15 de maio de 2018 | 10h 44
Mãe! Um dos melhores (e controversos) filmes de 2017
comentário(s)
A+ A-
PUBLICADO POR
Redação JC
jcuberabacontato@gmail.com
Publicado por: Redação JC

Imagens: Divulgação

Mãe! é um filme controverso. Não tem como assistir à obra do diretor nova-iorquino Darren Aronofsky e ficar em cima do muro. Ou você gosta do filme, ou você o odeia. Eu particularmente adorei o filme, mas não foi de primeira. Ao sair da sala do cinema eu só me sentia confuso, atordoado, logo precisava estudar e conversar um pouco mais sobre o que vi para tentar um entendimento completo. Algumas pessoas consideram que isso é o fator que torna o filme ruim, ou seja, ele não se sustenta por si só, não apresenta as respostas ou indícios que fazem o espectador compreendê-lo completamente.

No entanto, essa é a beleza da obra. E é realmente uma obra (de arte) o que Aronofsky fez. Primeiramente, por apresentar uma visão diferenciada de uma história que todos nós já vimos diversas vezes. A perspectiva que ele aborda, e como a apresenta de forma alegórica, faz com que a necessidade de prestar atenção aos detalhes seja vital, senão nos perdemos. Em segundo lugar, temos as atuações, especialmente da protagonista interpretada pela atriz Jennifer Lawrence. Vemos tudo que acontece pelo seu ponto de vista, desta forma, o filme todo acompanha ou sua visão daquilo que está acontecendo, ou sua reação ao que ocorreu. E isso é fator-chave para compreender qual a mensagem que o diretor quer passar.

Na primeira camada da trama, vemos a personagem de Jennifer Lawrence (a mãe do título) acordar na sua casa de campo. Lá ela vive com seu marido, o poeta interpretado por Javier Bardem. Eles têm uma vida comum. A mãe cuida da casa em todos os sentidos, desde a preparação dos alimentos do casal, até as reformas feitas (como uma pintura da sala, por exemplo). Porém, o poeta está em crise para escrever sua nova produção. Ele não consegue obter a inspiração necessária para que ele possa enfim entregar uma novidade para sua editora.

Em meio a esta pacata vida surge um inesperado visitante. Um médico que passava pela região e precisa de abrigo. O poeta, sem pestanejar, logo abre sua casa para o estranho e, de uma forma que surpreende sua esposa, fica amigo rapidamente do indivíduo. Ela, por sua vez, não compreende a situação. Por que raios seu marido trouxe para dentro de casa um completo desconhecido? Por que razão eles estão ficando tão amigos? Mesmo não concordando inicialmente, ela oferece para ele tudo que tem de melhor: roupas de cama limpas, alimento, um abrigo. Não contente com apenas um visitante, no dia seguinte, chega a casa a esposa do hóspede. Mais uma visita? Pensa a mãe. Quando eles vão embora? Quem mora e manda neste território, que é sua casa, é ela, e o marido. O clima de tensão se aflora quando o casal inesperado invade o escritório do poeta e quebra, acidentalmente, uma joia que ele guardava com muito carinho. A partir desde ponto, o filme começa uma reação em cadeia sem precedentes.

Chegam à casa os filhos do casal hospedado. Eles se envolvem num conflito e um crime ocorre no local. A mãe não compreende como deixaram chegar àquele ponto. Mais pessoas chegam para consolar e tentar apaziguar os ânimos. A sua falta de compreensão aumenta, mas mesmo assim ela recebe os “convidados” e tenta auxiliá-los no que pode. Os convidados, tentando retribuir a hospitalidade do casal, começam a fazer coisas na casa, reformas, mexer nos móveis e aquilo revolta a mãe. Como assim, entram na minha casa, sem meu consentimento, e agora estão mexendo nas minhas coisas? Pintando, readequando. Ora, quem é responsável por isso é a dona da casa. Mas não para por aí, os visitantes começam a incomodar mais, e mais, e mais, até que ela não aguenta. Tem que expulsar todo mundo para recolocar as coisas no lugar. O que ocorreu foi uma invasão de privacidade. Totalmente compreensível, ninguém em sã consciência gostaria que alguém entrasse em sua residência e quebrasse sua pia, mudasse seus móveis de lugar, usasse sua cama, seu banheiro, sem que você deixasse.

Após esta revolta, o casal entra em conflito. Ela não compreende as ações d’Ele. É quando, após uma noite intensa, ela acorda e sabe divinamente que está grávida. Isso muda o relacionamento dos dois. Inspira o poeta que consegue, finalmente, escrever sua nova obra. E ela é linda. Inspirada por um ato de amor, e pela sua musa. A editora adora, o público ama, o poeta é então venerado e aclamado. Por isso, novas pessoas chegam ao lar do casal. Agora para celebrar. São “convidados”. Mas são tantos, e mais, e mais, e mais. Começam a incomodar de novo. O tempo passa e a mãe dá à luz ao seu filho. Porém ela precisa se esconder de todos, visto que a anarquia tomou conta da residência do casal principal. Ele, por sua vez, quer ter o filho em suas mãos. Ela não deixa, o instinto materno de proteção a domina. Mas é quando ela tem um deslize, pequeno, que Ele pega o filho e o leva para mostrar aos seus adoradores. Eles querem ver o filho do poeta, querem não só vê-lo, mas pegá-lo também. É quando acontece uma das cenas mais chocantes do filme. Ela se revolta, não aguenta mais tudo que está acontecendo, entra em estado de fúria intensa. A casa sente isso, os visitantes sentem isso. E, num ato final, para tentar acabar com aquela situação, a mãe incendeia a casa. Depois disso vemos o filme fechar o ciclo e voltar exatamente o seu início.

A partir daqui, vou abordar a trama que está na segunda camada do filme. Sugiro que você assista ao filme primeiro antes de ler esta interpretação.

Como havia dito no início do texto, o filme para mim é uma obra de arte. Normalmente, obras de arte, de artistas famosos, que possuem mentes fora da caixa, não são de fácil compreensão. Tudo pode impactar na sua avaliação final, desde seu humor ou estado de espírito no momento, passando pela sua vivência e experiência de vida, ou até o ângulo que observa a obra.

O filme que aqui analiso é uma alegoria bíblica. Conta a história mais antiga do mundo pela perspectiva de um outro personagem, a Mãe Natureza. Sim, a personagem principal do título referencia a natureza. O poeta, por sua vez, é Deus. A casa, que se divide em andares, possui o planeta Terra, no seu andar principal, o paraíso, no andar de cima, e o inferno, no porão da casa.

O fruto proibido, que os personagens Adão (lembra que quando o médico passou mal, Ele colocou a mão em uma ferida nas suas costas) e Eva quebram no escritório do poeta (ou seja, no paraíso), é a joia de Deus. Quando isso acontece, Ele sela as portas do paraíso. Caim e Abel, os filhos do casal visitante, cometem o primeiro crime na Terra.

Em seguida, vemos o funeral na casa que atrai muitos outros visitantes. Eles incomodam a mãe natureza, que não entende por qual motivo Ele traz estas pessoas para seu lar. O incômodo é tanto que é necessário um dilúvio para que eles entendam que precisam sair dali. Isso ocorre quando a pia da cozinha quebra, após duas pessoas sentarem insistentemente nela, mesmo após serem avisadas para não fazer aquilo pela Mãe (Natureza).

Depois disso, nasce o filho d’Ele. O filho que a natureza ofertou para Deus, o menino Jesus. Que é inspiração para nova obra divina (o novo testamento). Que atrai e agrada as pessoas. Mas que matam impiedosamente seu filho. Mas que então o adora, reverencia, após o perdão divino chegar.

A mãe natureza não entende muito isso. Ela vivia uma vida estável, confortável, e os visitantes/invasores, mesmo que sendo tratados inicialmente com respeito, não retribuem isto a ela, e por isso ela explode. Ela incendeia a casa (quando chegamos então ao apocalipse). E tudo volta ao início, o amor da mãe é a joia que permite a Ele recriar aquele mundo. Que haja luz! A primeira cena do filme é também a última. Gênesis, luz e trevas se separam. Fecha-se o ciclo da criação de nosso mundo.

A reflexão que o filme deixa para nós é: O QUE ESTAMOS FAZENDO COM NOSSA CASA, COM NOSSO PLANETA? Será que estamos respeitando ele? Será que estamos retribuindo o que ele nos dá (casa, comida, água)? Será que ele já não está nos dando indícios que nossas ações estão causando problemas? Pois é, por esse motivo, pela reflexão que o filme faz, que o considero uma das mais belas e importantes obras dos últimos tempos. Eu não esperava por isso, e fui adoravelmente surpreendido. Particularmente, filmes que me fazem refletir, pensar e talvez até mudar de opinião, devem ser cada vez mais apreciados.  

Nota do filme: 10/10.

ps.: Ressalto aqui que não estou fazendo nenhum tipo de apologia, apenas analisando o filme e a perspectiva diferente que o diretor apresenta.

OUTRAS CURIOSIDADES:

- Dentre as coisas que o diretor não explica muito detalhadamente, está o pó amarelo que a mãe toma, quando se sente mal. Em uma das interpretações que vi e li, aquele pó representa o PROGRESSO. É a forma que a mãe tem de reagir ao que está acontecendo com ela e a casa, e diminuir o impacto que ela tem diante de tudo de novo que está acontecendo. Aceitar da melhor forma a novidade.

- Vemos no filme a figura dos profetas divinos. Quando Deus marca um de seus adoradores vemos que, posteriormente no filme, este, por sua vez, passa a disseminar aquele gesto perante os demais.

- A cena da morte do filho do casal é CHOCANTE e demonstra um dos ritos mais antigos do cristianismo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cláudio Ribeiro de Sousa é Mestre em Ciência da Computação, Professor e fanático por cinema e séries de TV.

Comentários

NEWSLETTER
Cadastre-se e receba as novidades do
JC diretamente no seu e-mail:

 



  Agência Digital  
Todos os direitos reservados © 2018 · Jornal da Cidade