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Uberaba

16 de agosto de 2018 | 16h 43
Quantos presidentes têm nos seus grupos de Whats?
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PUBLICADO POR
Gustavo Pires
gustavohps@gmail.com
Publicado por: Gustavo Pires

Enfim tivemos o primeiro debate e a primeira oportunidade de ver um quadro geral com a maioria dos presidenciáveis. E o que vimos foi um rascunho. A obra mostrada é inacabada, cinza, mas em 50 tons de Temer, acertou o Boulos. No calor do momento em que o Brasil está, fizeram um show frio acompanhado de bandejão gelado.

(Reprodução internet)

É na outra tela que o calor esquenta até a bateria. Nos nossos grupos de Whats, pólos contrários faíscam. Sem limite de tempo para pergunta, réplica e tréplica, a rinha é livre. Vem meme, áudio, textão e discussão até o Daciolo contar que o “Amor saiu do grupo”. Mas a vida e o wi fi continuam, mesmo com a internet mais cara do mundo. 

Corta a água, mas a Netflix não. Como disse o Ciro, a democracia é uma delícia, uma beleza, mas ela tem certos custos.

Marina é aquela tia que começa pedindo respeito entre todos. É a tia boa praça, que toma chá de erva cidreira, passa receita caseira, conversa com as plantas, mas parece cansada de gente porque tem uma história sofrida. No Natal, ela agradece ao amigo oculto contando tudo que passou. Ela é bem intencionada, mas agarrada à bíblia. Na TV ela tem poucos segundos, mas no Whats, seus áudios são de oito minutos e ela fala tão devagar que a gente finge que escutou tudo e manda uma carinha sorrindo.

“Abre o olho, Brasil”, envia o tio Álvaro. Ricaço, odeia o Lula, cotas, bolsas ou qualquer privilégio. E ele não consegue se ver como privilegiado, mas como merecedor. Por odiar o Lula e o PT, é o cara que ama o Moro. Durante a Lava-Jato e os depoimentos do ex-presidente, é aquele tio que mandava memes empoderados do juiz. Tão repetitivo que fica moroso. E tão moroso que seu melhor amigo no grupo é o primo de terceiro grau, Meireles. Parente distante porque esse é rico mesmo. Daqueles que visitamos uma vez na vida. O cara que se deu bem porque entende de negócios, de mercado, de economia. Ele sabe do que fala, mas só fala do que $abe.

No meio do marasmo, chega aquele primo pseudosocialista metendo o pé na porta. Ele chega já fazendo propaganda e mudando o nome no perfil pra Boulos. É o primo que quebra os papos incessantes sobre grana, sobre o carro comprado, o novo salário conquistado. Que acha que mais importante que aprendermos a ganhar dinheiro, é não precisarmos tanto de dinheiro. Se os impostos fossem menores ou distribuídos como deveriam, se os juros fossem mais baixos, se a inflação fosse controlada, se a gestão fosse bem feita, se a corrupção tivesse alguma contenção. É o cara com memória cansada, que tenta enfiar goela abaixo as verdades do passado como causas do caos atual. Tem ótimos argumentos, mas às vezes se exalta. Ele ainda não tem a paciência necessária quando um agregado entra dando aulas da política velha. Repete o que todo mundo já sabe e é eleitor do Aécio até hoje. É um cara como o Alckmin, que gosta de discursar então manda vídeos longos tentando ser simpático. Ele é da turma amistosa do grupo, que evita conflito. Como o primo Ciro. Mais zoeiro, piadista, dá uma quebrada na seriedade, pelo menos. E mesmo com alguma demagogia, com ele dá pra conversar.

Mas eis que chega o namorado novo de alguém que ninguém conhecia. E ele chega mandando imagens religiosas com um ursinho carinhoso vermelho.

 

Conta que curtiu o Daciolo no debate e faz escada para um tio-avô dos mais conservadores entrar na conversa. É o parente ultrapassado demais para entender o feminismo, o racismo, a homofobia. É aquele cara que vive repetindo que no seu tempo as coisas eram melhores. Quando a mulher era mais submissa, quando o homem pagava as contas, quando a ditadura dava mais segurança e torturava só quem merecia. Esse é o parente que vota no Bolsonaro. E é geralmente quando a briga começa dividida entre ignorantes, ignorados e ignoráveis.

Dá para ignorar esse primeiro debate. Temos todos esses candidatos no meio de nós. Temos muitos presidentes. E nenhum congressista. Alguém fala do deputado federal em quem vai votar? Ainda buscamos um messias. E no meio da oferta, nenhum soou diferente o bastante que tenha convencido ser capaz de nos unir pela única concordância em qualquer grupo: mudança.

 

 

Gustavo Pires é Redator Publicitário, cidadão incomodado e motivado a escrever para gerar reflexão e qualquer mínima mudança de atitude.

 

 

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