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Uberaba

06 de agosto de 2018 | 03h 15
Carta de um menino de 2 anos aberta aos pais de Uberaba
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Gustavo Pires
gustavohps@gmail.com
Publicado por: Gustavo Pires

(Foto: Dmytro Samsonov - Freeimages)

 

Carta de um menino de 2 anos aberta aos pais de Uberaba

“Oi pai. Já há algum tempo não nos falamos. Nos falamos bem pouco, na verdade. Hoje já sou adulto. Mas lembro de não lembrar muito da sua presença no passado. Então me lembro que mamãe e você se separaram quando eu tinha 2 anos. Na verdade, nunca me esqueço. Pra tentar juntar o que foi separado, eu preciso voltar a essa época, em que a minha tela ainda estava em branco e já adulto, trago o repertório para o muito do que poderia ser reescrito ou escrito pelos pais de agora. 

Oi pai. Eu voltei aos 2 aninhos. Eu queria te falar que eu vou entender que mães e pais se separam porque estão infelizes juntos e que, na verdade, continuamos eternas crianças aprendendo a cair e levantar. Eu vou entender que nessa hora, o senhor vai sentir muita coisa ruim também. Vai sentir tristeza, desgosto, raiva. Mas quando esse momento chegar, papai, se separe da sua esposa, mas não se separe dos seus filhos. Porque se eu for educado assim, distante, é distante de você que aprenderei a ser.

Mas papai, eu preciso te contar que o senhor não imagina o quanto sou feliz por você ter constituído uma nova família. Sei que a sua nova companheira lhe faz bem. Minha nova irmãzinha é linda. Mas quando essa hora chegar, não privilegie uma família à outra. Não permita que sua nova companheira interfira na sua relação com seus filhos de antes. Não permita que eles sejam culpados pelos erros de vocês. Não nos abandone, papai. Quando essa hora chegar, aproveite os finais de semana pra curtir seus filhos. Vamos pra praça, tomar sorvete, dar risada. Porque se isso não acontecer, a gente não vai aprender a gostar da presença um do outro.

Eu também tenho pelo que agradecer, pai. Estou com 15 anos e o senhor me deu meu primeiro trabalho. Obrigado pela oportunidade. Quando isso acontecer será ótimo. Nós vamos nos conhecer melhor e nos aproximaremos. Só que terá um custo: o dos custos que a vida dá. Pai, nessa idade eu já não pensava em quanto a vida ia me custar, mas em que quanto eu gostaria de dar pra vida. O senhor pode não entender, afinal, é de uma geração diferente que foi educada para ter como único sinônimo de felicidade: ganhar dinheiro.

Então, pai, quando eu estiver com 25 anos, depois de ter passado pela faculdade, pelo início da construção de uma carreira, não me pressione tanto. Porque o mundo já estará pressionando bem mais. No seu tempo, vocês estudavam, se casavam, ganhavam dinheiro, tinham filhos e esperavam a aposentadoria. Mas o mundo vai mudar. As alternativas serão muito maiores. Os momentos de decisão se multiplicarão. E nós poderemos mudar de ideia e fazer novas escolhas ao longo vida. Então não me cobre pressa. Não me julgue por quanto eu ganho. Porque quando esse momento chegar, eu já terei, há muito tempo, conquistado o direito de fazer minhas escolhas. O senhor terá seu tempo pra entender, eu sei. Vem de uma formação de caráter para avaliar a vida monetariamente. Então saiba que as pessoas vão procurar outras formas de se sentirem realizadas, as possibilidades se abrirão e seus filhos vão experimentar diferentes caminhos. O sonho da casa própria será adiado. Silvio Santos será ultrapassado. Nós vamos querer conhecer lugares e histórias antes de decidir onde fincar nossa pedra fundamental. 

Mas o senhor precisa saber que essa diversidade de caminhos também vai deixar a minha geração muito confusa, pai. E isso vai trazer à tona novas dores antes escondidas. A depressão será a principal delas. É uma doença que vai pegar multidões, como me pegou aos 30 anos. O senhor vai pensar que é mimimi, fraqueza, fricote. Quando esse momento chegar, me apoie, me escute, me abrace, se esforce para me entender. Porque eu sei que o senhor não é nenhuma fortaleza. Que também sofre, que também chora, que também enfrenta inúmeras dificuldades. Então só entenda que passamos pelas mesmas coisas, em formatos diferentes. E que posso ser mais frágil que o senhor porque não fui ensinado a ser forte. Então não exija que eu seja forte. Ajude-me a ser. Se isso não acontecer, eu conseguirei me fortalecer em outros braços. Portanto, aceite e entenda o quanto meus amigos serão importantes na minha jornada.  

Aos 35 anos, temos nos visto muito pouco, pai. Saímos pra jantar algumas vezes no ano. Poderão ser tão raros nossos encontros que tenho um pedido. Filhos fazem muitos pedidos ao longo da vida, eu sei, mas esse é simples. Não mostre que seu principal interesse pelos seus filhos é sobre seu trabalho e seu salário. Não pergunte quanto eu estou ganhando. Pergunte-me se estou bem. Como ando me sentindo. O que tenho feito de bom. Só assim pra gente continuar se conhecendo. Porque os filhos de hoje são tão diferentes, pai. Você só tem os seus. Mas o do vizinho é diferente de mim. A do seu melhor amigo pode ser o oposto da minha irmã. E esse é um caminho sem volta. Se o senhor quiser me encontrar, é só segui-lo.  

É pai, vamos passar por muita coisa. Não poderemos mudar o que foi feito. Está feito. Mas eu te entendo. Hoje, eu olho para o senhor totalmente despido do uniforme de herói que a dramaturgia e a sociedade criam no imaginário infantil. Hoje eu vejo um homem que tem muitas qualidades, que tem seus defeitos, que tem dores, que também chora escondido (sim, eu sei), que sente saudades dos filhos e se culpa por isso. Hoje eu vejo um homem que quando se tornou vulnerável, eu passei a amar. O Dia dos Pais está chegando, mas termino minha carta não lhe desejando um feliz dia dos pais. Mas desejando por mais dias de amor voluntário e não obrigatório. Pois quanto mais te conheço, quanto mais pinceladas suas são dadas naquela minha tela em branco dos 2 anos, mais eu te amo, pai.”

 

 

 

Gustavo Pires é Redator Publicitário, cidadão incomodado e motivado a escrever para gerar reflexão e qualquer mínima mudança de atitude.

 

 

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