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Uberaba

28 de julho de 2018 | 00h 35
Rir dos nossos loucos te torna mais são?
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PUBLICADO POR
Gustavo Pires
gustavohps@gmail.com
Publicado por: Gustavo Pires

Dora Doida. O presidente. O Bin Laden. A Bebel do calçadão. O poeta de saia. Alguns dos loucos mais populares no inconsciente coletivo uberabense. Dora foi a primeira louca que eu vi de perto. Ainda criança, no centro da cidade, vi Dora levantando a blusa, mostrando seus peitos e xingando como era seu do seu costume afrontoso.

(Dora, Bin Laden e Bebel. Fotos: Reprodução Internet)

Mas antes dela, vi a loucura retratada na dramaturgia. Era mostrada sempre como alívio cômico, punição para os vilões no fim da trama ou monstros perseguidos pelo poder institucionalizado. Entendi, tempo depois, que Dora era uma mulher de quem eu ria para me proteger. Porque o que eu sentia, realmente, era o medo construído pelas projeções ficcionais que poucas vezes, acertaram no retrato da loucura.

O medo assombrou todos os que escreveram os capítulos mais trágicos na história da loucura. E que pena escreveu a primeira linha? Entre todas as suas mazelas, a religiosidade também abriu o parágrafo do medo da anormalidade como punição dos deuses. Na antiguidade, a loucura era tida como manifestação da ira divina, presença de demônios, baseado em preconceitos sagrados. Então queimamos mulheres atormentadas como bruxas (ou bruxas atormentadas), perseguimos pagãos, matamos revoltosos como vozes a serem contidas e, quando matar já não era civilizado, os doidos foram varridos para os manicômios, controlados com eletrochoque e desabilitados com lobotomia.

(Ilustração da prática da lobotomia – Reprodução internet)

Várias culturas usavam a prática de furar o crânio para liberar o indivíduo de espíritos malignos, cortando conexões entre neurônios. O eletrochoque é usado até hoje no tratamento de algumas patologias psiquiátricas resistentes à medicação.

(Lobotomia – Reprodução internet)

O porquê da popularidade da técnica é simples: a alternativa também era um choque, mas de realidade. Manicômios eram, e ainda são, depósitos dos nossos medos, nossas vergonhas familiares, nossos entes socialmente e economicamente inúteis. O movimento antimanicomial ainda luta para extirpar tais instituições por um tratamento mais humanizado. Mas quem deve ser tratado primeiro?

(Fonte desconhecida)

Eu me tratei fugindo da loucura que me é familiar. Bem familiar. Lá pela minha pré-adolescência, mamãe começou a ouvir suas vozes particulares e interagir com elas. Foi diagnosticada com esquizofrenia que, no conceito científico, leva à perda do contato com a nossa comum realidade por alterações químicas no cérebro.

Imagine-se em um quarto escuro, sem janelas, trancado por fora. Caixas de som ocultas então lhe torturam, ininterruptamente, com frases que atacam seus pontos mais fracos. Por quanto tempo você suportaria? O esquizofrênico suporta a vida toda porque não tem cura. A doença, mediunidade torturada, obsessão espiritual, ou seja lá qual for a origem do tormento é a voz que também atormenta todos ao seu redor.

(Reprodução Internet)

É preciso mais imaginação para entender. Então imagine, do nada, de um segundo para o outro, você começar a ouvir vozes onipresentes, oniscientes e onipotentes lhe xingando, lhe humilhando, rindo de você, gritando com você, o expoente máximo do bullying mas sem a possibilidade de defesa. Logo, a mente precisa organizar-se encontrando uma origem ou razão para o fenômeno. E a primeira origem são os que estão mais próximos. A mente atribui o xingamento ao filho. A ofensa veio do irmão. Aquela humilhação foi do colega de trabalho. Me xingou do que, seu vagabundo? Já ouvi dela. A primeira atitude é a fuga. Familiares somem. E quem se mantém perto também adoece.

Em busca de sanidade, a gente foge. Loucos. Loucos para conhecer novos lugares. Loucos por uma temporada no exterior. Loucos pelo emprego dos sonhos. Loucos por um carro novo. Loucos pelo sucesso. Para suportar a pressão, nos sedamos com Rivotril, o segundo medicamento mais vendido no Brasil. Eu fugi. Tive pressa. Não suportei as frustrações. E me quebrei. Caí na minha primeira depressão. Eu precisei entrar na insanidade para entender que enquanto buscava histórias longe do lar, a história mais importante e interessante da minha vida estava me esperando aqui em casa.

E falo porque estou farto de ver como escondemos as doenças mentais. Elas são a personificação da fragilidade humana e da nossa incapacidade de curar tudo. Elas também são o caminho para a compreensão de que não precisamos curar tudo. Mas aprender a lidar com a loucura diferente de cada um. Por que você por acaso lá é normal? Não. Pois não há mais uma única definição de normalidade e loucura. Quem você foi, quem você é e quem você será são três pessoas completamente diferentes.

(Reprodução Internet – Autor desconhecido)

A sociedade não avança junto com a medicina. Os tratamentos para esquizofrenia hoje são muito mais eficazes e com menos efeitos colaterais. Mas como não falamos sobre isso, sabemos poucos. Com minha mãe, passei por dez psiquiatras diferentes e talvez mais remédios que isso para achar um que realmente a fizesse bem. Com o tratamento correto, a esquizofrenia não é mais uma camisa de força para seus portadores que são socialmente e profissionalmente ativos. Diabetes, hipertensão, bronquite, rinite, sinusite, gota... todas doenças que precisam de tratamento vitalício.  

Falo para quem quer que me conheça: minha mãe tem esquizofrenia. Alguns já me disseram: “nossa, mas não imaginei que ela pudesse sentar com a gente e tomar uma cerveja conversando normalmente”. Adoro quebrar esse tabu. A esquizofrenia precisa ser trazida para junto de tantas outras doenças crônicas que só precisam de tratamento e cuidado. O diagnóstico tem melhorado, mas como tudo que vem à tona e se torna economicamente viável, botam preço e desigualdade.

(Artista: Rage Art)

Em Uberaba, não há atendimento emergencial especializado para casos de crise. A burocracia e demora para conseguir uma vaga nos CAPs – Centros de Atenção Psicossocial - é de enlouquecer. Psiquiatras particulares cobram, em média, 350 reais por consulta. Há medicamentos de 20 reais a 5 mil. São tantos números e por um deles, você não consegue retirar medicamento gratuito na Secretaria de Saúde. O processo é entravado por burocracias entre regras da Vigilância Sanitária e estruturas de clínicas e consultórios que não as cumprem e não recebem um número de autorização obrigatório que impede o paciente de ter acesso ao remédio que precisa. Em último caso, há os SPAs psiquiátricos luxuosos que podem cobrar até 500 reais a diária.

Rir dos loucos não nos torna mais sãos. Mas hipócritas. Transtornos de ansiedade, TOC, bipolaridade, síndrome de burnout, síndrome do pânico, depressão... tantas realidades incomuns e cada vez mais comuns. E continuamos rindo da loucura evidente porque ela torna as nossas mais próximas da normalidade. Cuidado. Enquanto se esconde, problemas psicológicos e psiquiátricos serão os mais incapacitantes no mundo em poucos anos. Você estará lá.

 

 

Gustavo Pires é Redator Publicitário, cidadão incomodado e motivado a escrever para gerar reflexão e qualquer mínima mudança de atitude.

 

 

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