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Uberaba

16 de julho de 2018 | 19h 13
Propaganda da prefeitura sobre a saúde da cidade te deixa doente?
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PUBLICADO POR
Gustavo Pires
gustavohps@gmail.com
Publicado por: Gustavo Pires

Volto de uma pausa para o café e vejo na TV mais uma propaganda da prefeitura sobre a qualidade da saúde em Uberaba. Meu estômago embrulha e abro aspas cafeinadas: “propaganda política persuasiva do governo deveria ser proibida porque nada mais é do que propaganda eleitoral em curso com uso de recursos públicos.” Informações governamentais deveriam ser dadas em informativos com fundo neutro, texto corrido, narração e libras, em coletivas ou em pronunciamentos. Acabaria com o uso da máquina para bancar milhões gastos em produção e veiculação de propaganda a favor da imagem de quem está no poder, com dados enganosos e que só mostra o lado mais brilhante da moeda. Se de um lado ela exalta o coroa, do outro, ela sai muito, mas muito cara.

Só com agência de propaganda, o custo de uma campanha política municipal para a prefeitura pode chegar a mais aos milhões de reais (mais ou menos reais). O café perde o efeito e meus hormônios depressores agem quando as imagens não cicatrizadas na memória são incomodadas pelo curativo bem feito na publicidade. Já estive próximo de tais campanhas e a primeiro regra é: se a notícia for ruim, dá uma maquiada.  

A esta inversão de valores e que se converte em valores humanos tão baratos eu tenho orgulho de ter dito não a criar para um candidato em que eu jamais votaria. Orgulho não deveria ser o sentimento, mas já nos acostumamos tanto com a vergonha que qualquer ato que a controverta gera tal sensação egoísta. Experimentei dela mais uma vez essa semana. Fui surpreendido com um convite para uma campanha presidencial. Corroborando a postura que afirmo ter, leia o papo: 

Publicitários são listados na escória capitalista por estimularem o puro consumismo. Mas dá para fazer escolhas mais enriquecedoras que a de um caixa dois. Em qualquer área, inclusive na sua. Eu só faria propaganda para um candidato em acreditasse o suficiente para votar. Mas as promessas para saúde já perderam o voto de confiança há muito tempo.

Eu cresci indo ao SUS. E quem conhece a medicina através dele deixa de confiar em médicos. Precisei deles quando tive uma fratura ridícula no metatarso, ossinho da lateral externa do pé, mas que pedia cirurgia. O tamanho pequeno do meu problema permitiu-me caminhar vagarosamente pelo processo e observar vários dos pedaços que fazem nossa saúde municipal tão disfuncional. Plagiaria Picasso pincelando um quadro cubista em que cortes, recortes e fraturas também ridículas nos mínimos detalhes formam a imagem completa do SUS. Mas prefiro contar.

(Reprodução La mujer llorando, de Picasso)

Observei a burocracia torturante. Quem espera por uma cirurgia sem necessidade de internação precisa, ainda assim, comparecer à UPA todas as manhãs só para assinar um documento que simule a internação. Ou isso ou você perde sua vaga para a cirurgia em um dos hospitais públicos da cidade. Penso em tantos outros quebrados sem locomoção tendo que cumprir esta dissimulação escancarada entre os próprios centros de saúde.

(Reprodução Internet)

Observei o despreparo profissional para lidar com enfermos enquanto já esperava no Hospital Escola, por uma maca. Na falta dela, vi duas faces da solidariedade em uma enfermeira me oferecer um lugar para dormir numa sala de consultas em desuso na madrugada e outra perguntar: “quem é esse? Ele não pode dormir aqui.” Faria diferença quem fosse eu? É surreal que para me oferecer repouso, as enfermeiras tenham que quebrar regras de um hospital onde o bom trato é exceção.

Observei já no corredor, a minha simplificável ansiedade se comparada ao sofrimento de tantos na espera como do gado para o abate. Não há nome mais apropriado que paciente para quem técnicos, enfermeiros, residentes e médicos não creem dever qualquer satisfação. Gritei com um residente: “ei, você pode me dar alguma notícia?” Silêncio. Enquanto, ao contrário, observei a indiferença dos funcionários que riam alto, contavam suas histórias de compadres e comadres nas cabeceiras das macas das dezenas de internados no corredor que deveria repousar. Corredor sem pressa.

(Reprodução Internet)

Observei o sistema desestruturado, sanitariamente irresponsável e despreocupado com infecções hospitalares, quando fui chamado para a cirurgia com a ordem de me virar para conseguir tomar um banho em qualquer quarto e me enxugar com um lençol. Ou isso ou perderia meu prazo. Na saúde pública, somos animais com prazo. Nos postinhos e nas UPAs, o médico ganha por número de atendimentos e uma média indicada de 15 minutos por paciente. Somos ameaçados com prazo, mas com consultas e exames lentamente datados.

(Reprodução Internet. Autor desconhecido)

Uberaba é referência na formação de profissionais da saúde. A UFTM foi, antes de tudo, nossa faculdade de medicina. Este tratamento desumano tem um diagnóstico por olhar clínico: a formação e atuação do servidor são desumanizadas. Educação para o mercado e não ao bem-estar humano, jornadas exaustivas, estresse do paciente pré-disposto a um mau atendimento, falta de materiais, equipamentos quebrados, meses por um exame e são estes profissionais despreparados quem têm de nos responder pela hemorragia que escorre de cima. Do poder executivo às diretorias de nossos hospitais e postos, ninguém estanca essa outra sangria nacional e seguem a receita da má gestão com o princípio inativo da fiscalização.  

Dou minha alta particular ao centro cirúrgico do Hospital Escola e ao tratamento dos profissionais. Como sociedade verticalizada que somos, eles ficam no andar de cima. Têm os melhores salários, condições de trabalho, estrutura e o resultado é um bom atendimento. Assim como cobramos, elogios também devem ser pagos. Ao menos a medicina se divide em especialidades. Há os especialistas humanizados. Os bem capitalizados. E há, sim, unidades de saúde pública que dão exemplo na cidade.

(Site Prefeitura: UAI – Unidade de Atenção ao Idoso)

O CAISM – Centro de Atenção Integrada à Saúde da Mulher funciona bem com consultas relativamente rápidas. A UAI – Unidade de Atenção ao Idoso faz, de fato, um trabalho que dá mais vida útil à terceira idade. Os CAPs – Centros de Atenção Psicossociais prestam um serviço que dignificam seus pacientes. Mesmo que essa não seja uma propaganda enganosa, conseguir uma vaga em qualquer um deles é uma novela.  

Ao menos temos saúde universal. Nos Estados Unidos, ou você paga ou morre. Aqui, ou você paga ou tenta sobreviver. Nas etapas de recuperação do pé quebrado, observei mais. E vi o ortopedista dizer aos pacientes reclamantes que chamassem a imprensa. Mas continuamos cada um contando seus causos, anos de sofrimento na recuperação e soltando o suspiro quase final: “ah, mas é assim mesmo. Tô acostumado”.

Eu nunca vou me acostumar. Não se acostume. Nós temos que começar dizendo aos maus servidores públicos: “Você está atendendo mal. Sei que seu trabalho é difícil, mas eu não admito ser maltratado. Você escolheu estar aqui então não desconte sua frustração em mim.” São recados que podem se converter em atitudes. Não se acostume com a crueldade política. Crueldade que anunciou cortes no piso da saúde e que o Ministério do Planejamento deixará de investir verbas em áreas sociais para compor os gastos com publicidade e comunicação institucional da presidência. 208,9 milhões de reais de programas de combate à violência contra a mulher, do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), do Sistema Único de Saúde (SUS), e de geração de emprego e renda vão para a propaganda. Sem plano de governo ou sem plano de saúde, ainda restam os planos de Deus.

(https://instagram.com/gpires/)

Nós sabemos que os jogadores dos tronos brasileiros apostam todas as suas fichas caçando níqueis para bancarem sua manutenção no poder. Enquanto isso, seguimos quebrados e ainda sem planos para conserto. O que ganhamos foi o palco em nossa versão de Vegas. Somos palhaços que se apresentam até em festas a fantasia. Imagino como somos populares entre os políticos que gostam de comédia.

 

Gustavo Pires é Redator Publicitário, cidadão incomodado e motivado a escrever para gerar reflexão e qualquer mínima mudança de atitude.

 

 

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