Tempo em
Uberaba

09 de julho de 2018 | 14h 59
De qual Uberaba você sente saudade?
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Redação JC
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Publicado por: Redação JC

(Foto: Alan Malon Free Images)

- Saudades.  

Assim chega mais uma mensagem de um amigo das antigas.

Mas raramente nos encontramos. Há um tempo entendo que a saudade é uma projeção do passado, ou seja, sentimos falta daquela pessoa naquele momento e não do que a outro lado saudoso possa ter se tornado hoje. Mas o lugar é a moldura do momento da saudade.

E as molduras dos momentos podem ter suas fotografias trocadas. Eu sinto saudade da Uberaba entre 1985 e 2004, que vão dos meus 2 a 21 anos. A primeira Uberaba de que sinto saudade é a das praças. De tantos diferentes se encontrarem naquela rede social sem wi fi e na ligação urbana com a natureza. Era saudável, familiar, divertido. Praça Carlos Gomes, Praça do Grupo Brasil e do Guanabara foram as minhas. Onde já mais tarde, ia com a turma do teatro fazer piquenique. 

(Foto: Reprodução Internet)

Mas quando volto a estas praças hoje, vejo a moldura da minha saudade mal cuidada, gasta pelo tempo, tomada de sujeira, grama alta e piso rachado. Quem mora ao lado ou ainda visita praças de bairro pede por reforma e manutenção há tempos. Ninguém parece estar olhando para isso. Porque esquecemos o passado. Afinal, lembranças e problemas surgem todos os dias.

O Parque das Acácias, (por que a gente não assume Piscinão logo?), fincou-se na memória da cidade quando abriu seus portões. Lindo, acolhedor, muito bem arborizado, um parque digno para a cidade. Voltei lá e outra moldura esquecida. Mato alto ao redor da pista de caminhada e do lado de fora, sem previsão para manutenção após a troca de governo.

Tanta coisa parece esquecida. Tenho saudade de 93. De aos dez anos de idade, jogar béte na rua, descer ladeira de rolimã, nadar na enxurrada (onde cê tava, mãe?), sem o medo atual do trânsito agressivo de Uberaba. Só nos últimos seis anos, a nossa frota de veículos dobrou. De brincar na Maria Fumaça da Mogiana que hoje está cercada contra vandalismo. 

(Fotos: Arquivo Público de Uberaba e Reprodução Jornal da Cidade)

Já era 1998 quando fiz quinze anos. Eu era um adolescente animado, mas sem nada do estereótipo insuportável do adolescente revoltado. Era um moleque feliz, produtivo e que sente saudade de andar sem um pingo de medo a qualquer batida do relógio. A violência cresceu na mesma medida em que educadores intensificaram suas queixas sobre as falhas na estrutura, investimento e salários no ensino. O policiamento também nunca foi grande coisa. A Polícia Militar depois do Congresso, é a entidade em quem o brasileiro menos acredita. Então isso não é engrossar o medo que pede a Intervenção Militar. Jamais. Se você pede por ela, peça longe daqui. Quem me lê sabe que não faz o menor sentido. Sobre Bolsonaro, que sempre adora uma janela Supepop, não debato por opinião pois há só um fato: ele é notavelmente incapaz de gerir uma nação e, principalmente, uma sociedade justa.

Tenho saudade. Mas só até 2004. Aos 21 anos, início da carreira em propaganda e então percebo o teto baixo da vida cultural, social e profissional  que Uberaba oferece. Deu tudo certo pra mim, mas só depois de uma expansão na cidade grande. Na volta, Uberaba parece estagnada em geração de oportunidade. E isso dizem muitos dos que vão e voltam. São muitos os que vão e não voltam jamais também. Se ainda não foi, vá. Experimente o elixir do que é ser cosmopolita para voltar com entusiasmo por mudanças.

Minha projeção de Uberaba está no passado. A moldura atual é feia e os momentos novos são poucos. Mas o senso do bom senso nos desperta para o presente quando ouvimos nosso prefeito ter a pachorra de dizer que: “quem não gosta de Uberaba vá embora daqui”. Perguntavam-lhe sobre segurança pública ao que o Piau retrucou:  “quem deixa de vir a Uberaba porque não é uma cidade segura? Isso não existe. Quem não gosta de Uberaba vá embora daqui. Eu gosto. Eu quero defender essa cidade. Uberaba, segundo as estatísticas da Frente Nacional de Prefeitos, está no pelotão das cidades mais seguras do Brasil”. 

 

Se preferir assistir:

https://www.youtube.com/watch?v=apMBYy2yCt4

Senhor Prefeito, isso existe sim. Estava minha prima de Goiânia me contando que convidou uns amigos de lá para uma festa universitária aqui. Como resposta: “ah não, dizem que é uma cidade perigosa”. Se isso já chegou lá, definitivamente não estamos no pelotão das cidades mais seguras do Brasil. Porque nenhum pelotão parece fazer um bom trabalho. Eu gosto de Uberaba sim. Só não gosto da Uberaba de hoje, por isso vou embora, possivelmente. Mas não sem antes aproveitar bem o espaço que me cedem para falar. 

(Foto: Reprodução Internet)

Em uma conversa informal num bar com o pai militar de um amigo, falávamos sobre a ditadura. Ele comentou sobre como estávamos seguros naquela época. De fato. Calados estávamos seguros. Mas consegui pensar a tempo de perguntar:

“Por que vocês precisam estar no poder para fazer o seu trabalho com a mesma qualidade que acham que faziam naquela época?” Não obtive resposta. Minha memória política já vem da retomada democrática. Mas sei o suficiente para entender que entre tantas saudades, nunca devemos senti-la por qualquer período que matou. Isso seria enfiar a história no BOLSO.

 

 

Gustavo Pires é Redator Publicitário, cidadão incomodado e motivado a escrever para gerar reflexão e qualquer mínima mudança de atitude.

 

 

 

 

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