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Uberaba

03 de julho de 2018 | 23h 13
Por que os suicídios em Uberaba são tão pouco noticiados?
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Redação JC
jcuberabacontato@gmail.com
Publicado por: Redação JC

Acordei triste numa sexta-feira com a notícia de uma jovem que cometeu suicídio saltando do décimo andar de um prédio em frente ao Habib’s. Sabe-se que ela usava Sibutramina para emagrecer e que falou de alucinações para pessoas próximas. Li a notícia aqui no Jornal da Cidade. E em nenhum outro veículo de comunicação. Se houve, foi muito pouco. Nós só ouvimos alguém dizer: tá sabendo da mulher que pulou do Chapadão? E a garota que se jogou do Manhattan porque o namorado rompeu pelo telefone? E o garoto de 15 anos que se enforcou porque a mãe foi buscar ele na balada? Viram lendas urbanas porque não são impressas.

(Reprodução Internet)

Em setembro de 2017, tive a oportunidade de participar ativamente do 2º Setembro Amarelo de Uberaba, uma iniciativa nacional do CVV – Centro de Valorização da Vida e que também ganhou vida aqui. Através da iniciativa da psicóloga Larissa Cruz, o projeto nasceu de um grupo de psicólogos voluntários para tratamentos psicoterapêuticos gratuitos. Dali veio a fan page com informações úteis e dela veio um Sarau. Foi aí que procuramos veículos de comunicação para divulgação do projeto. Obtivemos apoio de apenas um jornal informando a população sobre os atendimentos psicológicos e um belíssimo espaço sobre o Sarau AmarElos, cedido pelo colunista de cultura, Luiz Hozumi.

Em veículos de maior abrangência como televisões, todas as respostas foram nãos. Segundo eles, informar sobre suicídios pode motivar outras pessoas. Eu digo em caixa alta e negrito: NÃO. E eu posso falar porque sou um sobrevivente dessa fuga enganosa. Não falo para gerar compaixão ou empatia. Nem falo com orgulho, muito menos vergonha. Falo porque nem todos escapam dessa e atrás da tela distrativa da TV que se omite, há uma sociedade inteira omissa.

O maior perigo por trás de um cenário propenso ao suicídio é o SILÊNCIO. Somos educados para vencer, ter um bom trabalho, grana, casa, carro, viagens, roupas... mas poucos são os educados para as perdas, as tristezas, as quedas e os becos que a vida vai apresentar. E quando chegamos num deles, não vemos saída. Há os suicídios de base passional, há os que crêem na influência espiritual, e os que são resultados de quadros psíquicos fragilizados como a depressão. Ela é o tal beco.

(Reprodução Série Legion)

A depressão é um estágio mental, físico e energético de total exaustão e perda de perspectiva sobre uma vida possível. Não sentimos prazer com nada e perdemos absolutamente a crença na própria capacidade de melhorar. É a desistência do próprio eu. Enquanto muitas famílias e pessoas próximas ignoram e se calam sobre o assunto, este chamado câncer da alma já é a doença mais incapacitante do mundo, onde mais de 300 milhões de pessoas viviam com depressão em 2015. No Brasil, de quase 200 mil auxílios-doenças concedidos em 2016, 75 mil eram por depressão. As empresas ainda são incapazes de lidar com ela. Porque pessoas ainda são incapazes. Mas precisamos aprender. A OMS – Organização Mundial de Saúde - já alerta que até 2020, a depressão será a doença mais incapacitante do mundo. O suicídio é a ponta do iceberg com a prancha pronta para o salto. E ainda acham que não devemos falar sobre ele?

(Reprodução Internet)

Não encontrei nada sobre as taxas de suicídio em Uberaba. Mas o Brasil é o 8º país com mais casos: são 12 mil mortes por ano. A cada 10 segundos uma pessoa comete suicídio no mundo, e essa é a segunda maior causa de morte em jovens entre 15 e 29 anos. A maioria dos potenciais suicidas dá sinais. Mostra desinteresse por tudo. Para de se cuidar. Muda os hábitos alimentares e de higiene. E solta frases como: “minha vida não vale nada”, “cansei de tudo”, “prefiro morrer”. E ninguém entende por quê. Mas pergunta muito:

POR QUE VOCÊ não atende minhas ligações?
POR QUE VOCÊ não retorna minhas mensagens?
POR QUE VOCÊ não está rendendo no trabalho?
POR QUE VOCÊ está com esse mau humor? 
POR QUE VOCÊ só posta negatividade? 
POR QUE VOCÊ dorme tanto? 
POR QUE VOCÊ não sai de casa?

Quando há estas tendências manifestadas, a família ignora. Quando há uma tentativa falha, colocam uma pedra sobre o assunto.  Mas quando acontece, a família se cala para o mundo e entre si mesma. Aposto meu castelo de cartas em uma razão maior: a vergonha de ter um louco na família. Nós rimos e falamos dos malucos da esquina, dos doidos varridos para dentro de hospícios, da Dora Doida, personagem das ruas de Uberaba. Aí me lembro de uma história que a Denise da Supra me contou. Hoje vereadora, antes era cachorreira com mais 270 animais. Estávamos colhendo depoimentos para um documentário sobre sua vida, quando ela pôs nossa mente pra girar: “me chamam de louca. Mas eu estou lá em casa, cuidando dos meus cachorros, não fumo, não bebo, não uso drogas, enquanto minhas amigas da alta sociedade tão tudo no Rivotril. Então quem é a louca?” Ela é a louca porque os loucos ocultos que se deprimem no quarto ao menos estão escondidos da sociedade. Só que eles podem se esconder tanto que em algum momento, nunca mais havemos de vê-los.

Se ela tivesse sobrevivido, eu teria dito: "Vá com calma, você é importante demais. A vida ensina a viver, se você viver o suficiente". Tony Bennett sobre Amy...

(Reprodução documentário Amy)

Ninguém chega contando para as colegas de trabalho: meninas, meu filho tentou suicídio. Pois deveria. Nós ainda precisamos aprender que emoções não devem ser escondidas. Que a experiência de um auxilia outro. Que cada um é único em suas forças e fraquezas e respeitar estes limites é compreender o outro e se libertar para ser compreendido também. E enfim, compreender que dores não são competitivas. O Brasil tem ponto positivo nesse calor da discussão. Somos mais calorosos. Nos trópicos, falamos mais de nossos problemas com amigos. Somos mais abertos. Não à toa, os países frios têm os maiores índices de atentado à própria vida. Então falta pouco. Porque só falta uma coisa: falar sobre.

Temos falado mais. Quando o padre Fábio de Melo assume sofrer de síndrome do pânico e o comediante Eduardo Sterblitch fala sua depressão, isso nos conta que até o piadista ou o conselheiro da turma pode estar enfrentando um monstro que você desconhece. E mais vozes vão quebrando esse tabu.

Fale com seus filhos sobre isso. Peça para ouvir seu amigo triste. Expresse verbalmente: “eu estou aqui pra você”. E informe-se sobre para saber como abordar. Primeiro surge a ideia de morrer. Depois o planejamento de como fazer isso. Então é definida uma data. Por isso é importante que a abordagem seja gradual, nesta ordem, com delicadeza. Perguntar sobre o desejo de morrer é necessário. Depois pergunte se a pessoa já pensou em alguma maneira de fazer isso e se já pensou em quando fazer isso. A resposta sendo positiva já define uma alta gravidade. É hora de pedir ajuda.

(Foto: Arquivo)

Nem o suicida e nem os sobreviventes estão sozinhos. São muitos. Em um dos momentos mais emocionantes do VMA, prêmio de música da MTV americana no ano passado, o rapper Logic, Alessia Cara e Khalid cantaram o número de apoio à vida oficial dos Estados Unidos, com o palco lotado de sobreviventes ao suicídio carregando a frase: “Você não está sozinho”, para uma imensa audiência de jovens, o grupo etário que mais tira a própria vida no mundo.

Vale a pena assistir porque a apresentação é inspiradora:

Aqui, no Brasil, também temos nosso telefone. Quando bater o desespero, ligue 141 - Centro de Valorização da Vida. Para contribuir em Uberaba, você pode se juntar ao Setembro Amarelo que vem aí novamente. Acesse a página e acesse vidas: https://facebook.com/setembroamarelouberaba/ 

(Reprodução Internet)

 

 

Gustavo Pires é Redator Publicitário, cidadão incomodado e motivado a escrever para gerar reflexão e qualquer mínima mudança de atitude.

 

 

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