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Uberaba

26 de junho de 2018 | 12h 32
A Uberaba mais humana depois das humanas na UFTM
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Redação JC
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Publicado por: Redação JC

 

(Reprodução Internet) 

Nasci, cresci, vivi, mas não me criei em Uberaba. Sou cria da imaginação de um universo particular desenhado a partir das ambições ingênuas de uma criança que sonhava alto. E junto com os pelos, os centímetros e os quilos a mais, não encontrava lugar em que coubesse. Um transgênero sente que nasceu no corpo errado. Sem jamais comparar os becos de tais moradas provisórias, posso me definir um “transcidadão”? Algo em Uberaba não dava match com o meu perfil forjado na projeção dos livros, do cinema e da TV.

 

(Artista: Lucas Cassarotti - @cassarottilucas)

Uberaba é um pólo universitário, mas de Universal, só a igreja. Então considero 2009 d.C., um marco na história da cidade que continuava a mesma, mas seus cabelos, quanta diferença. Foi quando a UFTM abriu Geografia e História, cursos que se juntaram a Letras, Psicologia e Serviço Social em uma nova composição de humanas e humanos. Não é preciso doutorado para entender. Cursos como esses não são caminhos fáceis para enriquecimento financeiro, mas sim estradas cheias de diamantes brutos a serem lapidados à luz do conhecimento. A UFTM desempenha uma função de liderança no Triângulo Mineiro e recebe estudantes de todo país, com destaque para o interior de São Paulo, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. 

(Foto: reprodução site UFTM) 

Se a Universidade influencia, seus novos alunos chegaram como más influências à nossa tripofobia, o medo irracional de buracos ou padrões irregulares (sim, eu dei um Google nisso). E buracos foram o que esses jovens abriram com suor, porque aqui é mais embaixo. Encheram esse vazio de conteúdo e araram um terreno novo de onde brotaram saraus politizados que saciaram a larica por sabores diferentes. Levantaram a voz contra iniquidades em movimentos feministas, raciais e LGBTs. Assustaram o cômodo formato uberabense com suas diferentes formas. Repúblicas representam este nome como nunca antes na história desse país. A cachaça acompanha e as bocas salivam com esse beijo de vida. Sim, eles trouxeram beijos, porque trouxeram amor. Até poliamor, a quem possa interessar. 

 (Ilustração: Maria Clara - @desenhosdequintal / Fotos: Coletivo Ana Montegro)

Nesta diversidade com sua beleza incomum, há em comum a intensa sensibilidade em relação ao outro. Como nova demanda, logo encontraram ofertas. Uberaba experimenta um boom de cultura alternativa oferecida pela galerinha de humanas que é quem fecha a conta que os de exatas também pagam, depois de conferir, provavelmente. Esta mistura é uma fórmula medicamentosa de bom-senso versus a compartimentalização cultural da cidade. 

(Artista: Rage Art) 

Só que até num templo do conhecimento, a diversidade gerou lados. Dentro da UFTM, a velha guarda das ciências da saúde não se entendeu bem com a estranheza dos abstratos. Com a chegada das Engenharias em 2010 então, o muro começou a ser levantado. Não fui nem sou discente da UFTM, logo, não me faço representante. Mas desde que a Prof.ª Ana Lúcia de Assis Simões tomou posse como reitora em 2014, há queixas sobre privilégios de investimentos nos cursos de saúde e engenharias. Não por acaso, ela é doutora em enfermagem pela USP. Ainda reverberam em meus ouvidos, suas palavras na colação de grau de amigos historiadores e geógrafos: “quem não estiver satisfeito que se mude”. Doutora, não faça isso. Se uma universidade não reúne intelecto suficiente para a livre expressão e debate, estamos presos a esta péssima impressão que uma instituição de tamanha importância não merece estampar. 

A chapa esquentou ainda mais após as novas eleições para reitoria, no último dia 6 de junho. A priori, a oposição venceu e a situação busca desqualificar o resultado. Segundo um trecho de uma nota de repúdio enviada pela Chapa 2 – A UFTM que nós queremos ser: 

“Foram horas e horas de apuração, acompanhadas por uma plateia atenta e transmitidas via internet. Centenas de mesários, fiscais e representantes da Comissão Eleitoral trabalharam arduamente durante a votação e não se ausentaram dos postos eleitorais um instante sequer. Pontuam também que não houve nenhuma reclamação por parte dos fiscais da própria chapa 1 e nem de seus membros ou apoiadores (...). 

Bastou o presidente da Comissão Eleitoral anunciar o resultado final do último segmento apurado, e assim confirmar a vitória da Chapa 2, para que a chapa derrotada se prestasse a todo e qualquer tipo de questionamento.

Desde então, demonstrando alarmante irresponsabilidade institucional, a chapa derrotada tem procurado protelar a definição da lista tríplice segundo as condições previamente estabelecidas pelo Conselho Universitário.

Atrasou propositadamente a convocação das reuniões deste conselho superior e tem tumultuado o ambiente da UFTM ao difundir insinuações e falsidades sobre a legitimidade do processo eleitoral. Inclusive, na reunião do CONSU, ocorrida em 18 de junho, membros da Comissão Eleitoral tiveram seu pedido de participação negado pela reitoria. O absurdo fica ainda maior ao se considerar que a transparência e a publicidade são mandamentos da administração pública. Assim, não se justifica o impedimento para a participação da Comissão Eleitoral na referida reunião, que, em termos legais, não estava sujeita a nenhum tipo de sigilo.”

 

(Reprodução Internet)

 

Na página do Facebook da Chapa 1 – União e Confiança, encontrei este único pronunciamento sobre o caso:  

“O processo eleitoral para Reitor e Vice-Reitor da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, gestão 2018-2022, iniciado no último dia 6, ainda não foi concluído.

Neste contexto, os candidatos da Chapa 1, Professora Ana Lúcia de Assis Simões e Professor Luiz Fernando Resende dos Santos Anjo, entraram com recurso, no dia 8 de junho, junto à Comissão responsável pela condução do pleito eleitoral, tendo em vista a troca recorrente, em urnas localizadas no Centro Educacional e Hospital de Clínicas, de cédulas do segmento docente que votou com cédula destinada ao segmento discente,conforme diversas denúncias recebidas pela Chapa 1.

De acordo com o Artigo 48 do Regulamento Eleitoral, o prazo final para providências por parte da Comissão Eleitoral é até 12 de junho. Cabe destacar que a diferença de 0,6% de votos e as referidas ocorrências podem interferir no resultado final da consulta informal. “

O recurso foi indeferido pela Comissão Eleitoral, mas outros seguem enquanto nossos recursos são gastos aqui e atrasados na rede estadual de educação, base que em breve será eleitora. Há meses, professores em todo estado de Minas recebem salários com atraso ou em parcelas e reivindicam para ativos e inativos, o simples recebimento no 5º dia útil e outras pautas que, na atual conjuntura, entraram em segundo plano como o pagamento do piso salarial e melhoria no plano de saúde. A greve dos caminhoneiros fez barulho internacional, enquanto a paralisação dos professores, ou seja, quem indicará as novas direções do porvir, é ultrapassada em alta velocidade sem merecer ao menos uma olhadela no retrovisor. 

Descaso com educação é assunto velho que ocupa suas cadeiras preferenciais nos altos cargos e rouba até o espaço de boas novidades como foi a humanidade trazida pelo novo cenário da UFTM. Um espetáculo interrompido por falta de atrações. É uma pena que este intercâmbio pareça ter durado tão pouco. Até quando? Bom, eu sou de humanas então não sei contar. Mas lamento que as ideias divergentes que começavam uma troca tenham sucumbido aos ideais particulares, mais uma vez. 

 

 

Gustavo Pires é Redator Publicitário, cidadão incomodado e motivado a escrever para gerar reflexão e qualquer mínima mudança de atitude.

 

 

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