Tempo em
Uberaba

18 de junho de 2018 | 17h 39
Por que o julgamento pela aparência aprisiona tantos uberabenses?
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Redação JC
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Publicado por: Redação JC

ONDE VOCÊ TRABALHA? O QUE FAZ? ONDE MORA? DE QUE FAMÍLIA VOCÊ É MESMO? E ESSA BLUSA, É DE QUE MARCA? Você já deve ter passado por este inquérito. Mas para ter direito a ele, o primeiro filtro investigativo sobre quem merece ou não pertencer a um grupo ou a um lugar é aquela velha olhada da cabeça aos pés. Uberaba é lotada de juízes da aparência alheia. E juiz veste toga. O formato reto da armadura dos magistrados está relacionado com retidão, ausência de sinuosidades ou dubiedades, assim como nos ternos, tailleurs e becas, precedentes para a absolvição apenas de quem segue o dress code da suposta credibilidade e bom saldo bancário.

Os membros da suprema corte da aparência utilizam o próprio espelho narcisista para julgarem e condenarem aquele cujo exterior incomoda seu bem maquiado interior. Dividindo o elevador, na fila da padoca gourmetizada, na entrada da baladinha top, na espera pelo garçom do bar diferenciado, a primeira impressão é a que fica. Fica no mau atendimento generalizado pelo pré-julgamento da comissão a receber. Fica na negação do atendente em servir quem parece pertencer à sua mesma classe. Fica na espera da fila da balada pelo parecer do segurança. Pois parecer é muito mais importante que ser.

E quem não parece...

Somos bem-vindos se, mesmo antes de qualquer troca humana, nossa troca de roupa aparentar que pertencemos a um “bom lugar”. Dirija um bom carro desde que ninguém saiba em que garagem ele é guardado. Leve na mão uma cerveja cara, mesmo que ela tenha que durar a noite toda. Apresentar-se bem é um problema? Claro que não. Está no rabo do pavão para conquistar a fêmea, na juba do leão mais forte da manada, nos grandes galhos do veado, nas lindas plumas das aves-do-paraíso. Até os animais possuem senso estético, como instinto básico de sobrevivência e seleção natural para reprodução.

(Foto: Getty Images)

Se tanto nos gabamos da racionalidade humana, reproduzimos o comportamento animal entre os que julgam as caras baratas e os que voluntariamente se entregam às algemas da necessidade de aceitação. A atitude dos sectários revela mais sobre eles do que seus alvos. Para se libertar das amarras, botar a cara lavada na rua e se apresentar sem disfarces, é preciso coragem. E quem o faz comete uma ousadia ofensiva à máscara do julgador. Logo, não merece seu olhar que, depois da típica análise, se revira e retorna rapidamente ao próprio ego.

Esta não é uma marca made in Uberaba. Só no ano passado, o mercado de luxo movimentou R$ 22,5 bilhões no Brasil. A favor dos grandes centros está o maior espaço para as diferentes estéticas se espalharem e encontrarem demanda para sua oferta. Em cidades menores como Uberaba, a confluência social gera uma constante guerra fria. Porém, é justamente destes nós sociais que a moda se recostura. Ela é expressão, arte, manifestação, resgate, mistura. A tendência étnica é irreversível e já acalora discursos sobre apropriação cultural. Uma estampa linda que você usou ontem pode ter saído de mãos que você se recusa a cumprimentar.  Mesmo para os que transitam em vários círculos, a aparência ainda é um fardo quando dividida entre seus vários nichos de socialização. A namorada lésbica masculinizada causará estranheza nos pais da parte feminina? Carregar o relacionamento com um gordo é literalmente um peso? Apresentar a namorada negra com os cachos assumidos demanda cuidado? Levar aquele colega de boteco que só usa berma e chinelo para dentro de casa é perigoso? Se sua resposta é sim para qualquer um destes exemplos, você foi aprisionado ou é o carcereiro.  

O carnavalesco Joãozinho Trinta cunhou a frase: “Quem gosta de miséria é intelectualpobre gosta de luxo”. Parafraseio dizendo que intelectual, pobre e rico esclarecidos gostam é da verdade. O julgamento da aparência não está no antagonismo entre ricos ou pobres, mas preconceituosos ou não, seja de qualquer classe, gênero, etnia, orientação sexual, bairro, peso, altura e demais rótulos. Há muito a discriminação pela aparência se enraizou aqui. Até poucos anos atrás, no tempo em que clubes eram importantes núcleos sociais da cidade, negros não eram aceitos como sócios. Então somos Nutella? Bom, eu não consumo. Na boca, tenho a sensação de uma margarina misturada com achocolato em pó. Mas se no meme eu seria raiz, em Uberaba eu sou uma fruta podre que caiu do pé. Felizmente, frutas podres carregam sementes que podem criar um rizoma diferente.

Em tempo, rizoma é uma raiz que cresce horizontalmente, sem uma direção clara e definida e que se entremeia a raízes de diferentes espécies. Já a superficialidade de quem julga pelo que vê só lhe permite enxergar o que cresce verticalmente, acima do solo e acima dos outros. É mais fácil viver com os pés fora do chão.

A raiz desta intolerância é mesmo tão profunda a ponto de tornar impossível percebermos que não somos somente troncos e galhos frondosos? Que muito mais enriquecedor do que fazer sombra aos outros são os diferentes frutos que podemos provar? Se você julga, experimente trocar aquele “o que você faz” por “o que você gosta de fazer”. Desenvolva o interesse pelo sobrenome para a admiração pela identidade do outro. Evolua a curiosidade pela marca da roupa pela boa marca que um estranho pode deixar na sua existência.

Se você é julgado, tenha seu espelho como maior crítico e aliado para terminarmos juntos esta leitura, sem a vergonha de que, por escrever ou pensar sobre, aparentemente nos importemos com isso.

(Reprodução internet)

 

*Ilustrações: Marco Melgrati

 

 

Gustavo Pires é Redator Publicitário, cidadão incomodado e motivado a escrever para gerar reflexão e qualquer mínima mudança de atitude.

 

 

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