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Uberaba

11 de junho de 2018 | 18h 55
É por preguiça de ler que uberabense prefere até filme dublado?
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Redação JC
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Publicado por: Redação JC

Fui pesquisar se “Os Vingadores – Guerra Infinita” ainda estava em cartaz. Está. Mas só dublado. Há alguns anos, tive a oportunidade de perguntar à gerente de uma rede de cinema, por que a maioria dos filmes em cartaz era dublado.

- Porque dá mais bilheteria – fincou.

Antes dos créditos, você que prefere filme dublado mas é bem alfabetizado, perde a interpretação do elenco, a atmosfera original, a autenticidade do som, a obra verdadeira. Este cúmulo da preguiça de ler ilustra a atenção dispersa das gerações recentes. A turma do imediatismo e a necessidade de contar cada passo dividem a atenção em vários caminhos e ler legenda não é um deles. Porque LER não é um deles. Legendar as fotos da sessão sim.

(Foto: Freepik)

Se não há disposição para uma legenda, imagine 350 páginas de ininterruptos caracteres. E jogando por baixo. Há um desnível de alto grau entre os poucos que leem muito e os muitos que leem pouco ou absolutamente nada. Isso não vem de nenhuma pesquisa oficial, mas da simples observação do meu entorno e do entorno daqueles com quem convivo. Pense no seu e imagino que a conclusão será semelhante.

Alguém cunhou que toda obra, ficcional ou não, é autobiográfica, pois é baseada na experiência e repertório do criador. E se tenho algum repertório que tenha feito você chegar até este texto, ele veio da leitura. Isso me remete a um filme antigo, que só passa em minha tela mental. 

Com pais separados aos 2 anos, mãe, irmã e eu nos mudamos para uma casa onde, outrora, morava uma professora que recebia livros do MEC periodicamente. Ela se mudou, mas os livros continuaram chegando. E eu li. Iam da série Vaga-Lume a Machado de Assis e literatura de terror de cordel. Iam de um menino e seu mundo comum para outro que se tornou capaz de imaginar mundos melhores. Quando minhas páginas caseiras acabaram, comecei um relacionamento sério com a Biblioteca Municipal de Uberaba e percebia que poucos amiguinhos de escola estavam nesta mesma página.

Nós temos uma das melhores bibliotecas públicas de Minas. Modernizada, confortável, com riquíssimo acervo infantil, mas com poucas prateleiras dedicadas à literatura adulta. E nós não pedimos, não cobramos, não reclamamos deste ponto fraco. Porque ler não é nosso ponto forte.

(Fotos: Reprodução Site Biblioteca Municipal de Uberaba)

Em 2014, uma pesquisa da Fecomércio-RJ mostrou que 70% dos brasileiros não leram um livro sequer. Nem-um-li-vro-se-quer. O baixo interesse pela leitura no Brasil é conseqüência histórica. A obrigatoriedade da alfabetização democrática tem só 88 anos, enquanto o velho mundo lê há séculos. Somos originalmente muito mais verbais do que letrados. O livro mais famoso do mundo, a Bíblia, foi impresso e lido lá. Aqui, ele foi contado pelos jesuítas e assim continua nos púlpitos cristãos. Por falar em velho mundo, você viu essa impressionante biblioteca na China que viralizou dia desses? Dispensa legenda.

(Foto: Reprodução internet)

Ver e ouvir é moleza. Bons livros são obras exigentes. Não é ele que vem até você. Só que ir até ele é a mesma sensação de uma deliciosa conquista. Isso exige tempo. E tempo é o que a atual geração não tem. Sua storie tem que ser escrita minuto a minuto para não sair dos olhos dos novos leitores, a quem chamam de seguidores. Quer parecer inteligente? Envie links com títulos interessantes mesmo sem ter tirado dez minutos para ler seu conteúdo. Você sabe que faz isso no Facebook e nos grupos de Whats. Assim como faz, recebe.

Não temos tempo. Porque devemos tempo ao sistema. Logo, temos pressa de sermos notados. E o que nos torna mais rapidamente notáveis é dinheiro. A educação para o vestibular é para criar mão de obra. A nova Base Nacional Comum Curricular está jogando livros na fogueira. Como podemos admitir que história e geografia sejam opcionais aos 16 anos se o estudante só pode saber conscientemente pelo que optar através delas? Julgo um crime social que vai deixar cicatrizes na história. Mas ah, tudo bem. A história é opcional. Se tantos já gritam pela intervenção militar, o aumento da ignorância prenunciada neste novo plano vem engrossar o coro. Inclusive o coro que podemos tomar.

(Foto: - João Antonio Pagliosa)

Para exemplificar a geografia opcional, um brasileiro que conheci em Santa Catarina me descreveu seu Brasil:

- Sul: tecnologia, desenvolvimento e gente bonita. Sudeste: violência. Nordeste: inabitado.

Eu descrevi o meu:

- Quanto ao sul, tem razão. Mas se esqueceu do Norte e do Centro-Oeste. O Sudeste concentra as duas maiores economias do país e uma delas vem do meu estado, Minas Gerais que, mesmo assim, mantém sua simplicidade. E do Nordeste (pausa para suspiro), vieram apenas nossos maiores artistas e escritores.

Ler nos melhora como gente que se importa com gente diferente da gente. O aprofundamento que só um livro proporciona na realidade de outro alguém constrói a empatia pelas mais diferentes formas de ser. Lendo de trás para frente, a reforma do ensino médio reforça a educação financista, voltada para o mercado de trabalho. Se cobro (e devo) visitas à Biblioteca Municipal, sei que o desejo não será plenamente atendido. O acervo é massivamente disciplinar e acadêmico, jogando o literário e lúdico para baixo no ranking. Mesmo quem só pensa financeiramente não faz ideia do que a literatura pode fazer por sua carreira. Ela aprimora sua escrita e linguagem, a oratória, a empatia em equipe, a velocidade de raciocínio, a capacidade de liderança, a criatividade, inovação e o senso crítico.    

Enquanto a economia protagoniza a história, nossas livrarias fecham. Já notaram que quase nenhuma dura aqui? A Alternativa Cultural que é dura na queda. Okay que comprar online é mais barato. Mas as livrarias daqui ainda não tomaram lições com a Cultura ou a Saraiva que, mais que um amontoado de prateleiras com livros, exaltam o prazer de ler. Livros para livre degustação, pufs para se jogar e ambiente detalhadamente pensado para a experiência. Mas há mocinhos no capítulo “Uberaba”. O Cupim literário estimula a escrita autoral. O homem de saia, personagem da cidade e poeta, monta seu sebo e faz declamações onde lhe dão espaço. O grupo de autoras Histeryx realizou o Leia Mulheres para evidenciar as escritorAS e o Sonora, festival para compositorAS e cantorAS. Sim, são vários ÁS ao lado dos livros nessa mesa.

A linguagem avança. Nada impede o progresso. Obras literárias podem ser consumidas em qualquer plataforma digital. E ainda assim, a venda de e-books nunca decolou no Brasil e já é um mercado estagnado nos Estados Unidos e Europa. O mercado de editoras tem que oferecer cada vez mais atrativos pops: brindes, surpresas, objetos de decoração. O etéreo da leitura se materializa em objeto fotografado, postado e curtido, nas estantes lotadas e quase intocadas, nos livros de arte que só servem para uma boa impressão às visitas, mas que poucas vezes sentiram o prazer de serem folheados.  Grito: livros não foram feitos para estocagem.

(Fotos: Reprodução Internet)

Será reversível? Eu acredito que sim. Pois sempre quando penso que não, me lembro de atitudes como a campanha Passe Adiante que deixava livros em locais públicos e trazia na folha de rosto um único pedido: Depois de ler, deixe em algum lugar ou passe pra frente. E me lembro principalmente daquele dia numa banca de revista em Sampa. Um garotinho que pedia por ali me abordou:

- Oi, tio.

Fui tirando a carteira do bolso e ele me interrompeu:

- Não quero dinheiro não. Queria que o senhor comprasse alguma coisa pra eu ler.

- Escolha aí o que quiser.

Ele pegou dois gibizões da Turma da Mônica. Eu chorei. Porque foi assim que comecei.

 

 

Gustavo Pires é Redator Publicitário, cidadão incomodado e motivado a escrever para gerar reflexão e qualquer mínima mudança de atitude.

 

 

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