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Uberaba

04 de junho de 2018 | 12h 51
A elitização do bem-estar: Uberaba e seu comércio da #gratidão
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Redação JC
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Publicado por: Redação JC

#Gratidão é a palavra da moda. Nas pontas dos dedos de celebridades e anônimos, são milhões de posts com a hashtag valorizando sua pose de yoga ao pôr do sol em Ibiza, sua barriga negativa banhada pelo Pacífico, seu café da manhã cinco estrelas em Bariloche.  

(Fotos: Reprodução Instagram)

Essa onda acompanha uma nova elucidação espiritual. O novo ‘obrigado’ expande o hábito de agradecermos só ao que ganhamos ou conquistamos para uma postura de gratidão à vida, compreendendo o que se perde como aprendizado. No budismo, o cultivo da gratidão é considerado saudável. Em várias filosofias religiosas, estamos reaprendendo a orar. O desejar e o se queixar vêm evoluindo para o agradecer e saber o que pedir.

Lembro de uma cena que, mesmo vinda de uma comédia sem graça, traz a graça do ensinamento. Em “A volta do Todo Poderoso”, o marido instruído por Deus a construir uma nova arca é abandonado por sua envergonhada família. Em um encontro da esposa com Deus, ela se queixa do marido e lamenta pela desunião familiar, ao que ele rebate: se alguém rezar pedindo paciência, acha que Deus dará paciência ou a oportunidade de ser paciente? Se pedimos coragem, Deus dá coragem ou a oportunidade de sermos corajosos? Se alguém pede que a família seja mais unida, acha que Deus une a família com amor e alegria ou dá a eles a oportunidade de se amarem?

Dê uma olhada na cena:

Belíssima ilustração da real gratidão, seja por crença ou pura metáfora, mas que raramente é ilustrada e tagueada nas redes. Ao contrário, a individualização crescente do ser e estar é vista na celebração do próprio corpo, da exaltação do passaporte carimbado, dos salgados preços da alimentação saudável, das conquistas compradas. Não posso ser hipócrita. É um néctar saboroso compartilhar momentos e receber coraçõezinhos, fonte da qual também bebo. O desvirtuamento está no exibicionismo competitivo de narrar uma vida que seja atraente para os outros, e mais atraente que a dos outros. Estão nos dizendo o tempo todo: tenha um belo corpo como o meu, viaje para belos lugares como eu, alimente-se bem a meu exemplo! Se a gratidão é medida pelo merecimento, dele surge a comparação e dela vem a autocobrança que, particularmente em Uberaba, tem custado caro.

(Foto: Freepik)

Como tudo que vira moda, vem alguém para embalar, etiquetar e botar preço. O Yoga Para Todos acontece uma vez por ano. Nos outros dias? Pague uma das academias que se promoveram através do evento. As degustações de pratos veganos ou orgânicos podem continuar se você puder pagar um sofisticado menu harmonizado com bom vinho. O mercado é livre. E afirmo aqui meu respeito pelo trabalho e ajuda que os profissionais do bem-estar prestam a seus clientes. Só que o marketing da gratidão se apropria da essência espiritualista da palavra para transformá-la em comércio de interesse. Como em todo marketing, a mensagem também aprimora sua linguagem, indo de ‘gratidão’ para a nova modinha da ‘gratiluz’, que parece ter trazido consigo os 25% de reajuste da Cemig. Somos a terra da gratiluz seletiva? De quem só é grato se bem pago? A ansiedade pelo merecimento barrado pelos altos preços deste mercado é inflacionada quando seguimos o fluxo de um afluente desse mesmo rio: a comercialização da espiritualidade. Não é novidade. Esteve na cobrança da remissão dos pecados pela igreja católica até a institucionalização do dízimo. Nos cultos evangélicos que vendem milagres à onipresença paga na TV para seguirem se bancando.

Sintonizando na programação local, em Uberaba o comércio da espiritualidade está nos tarôs, búzios e trabalhos cobrados em algumas casas de duvidosa credibilidade. Em eventos com gurus da elite que comercializam tratamentos espirituais a preços absurdos que são dados de graça nas dezenas de centros espíritas da cidade. Nos encontros que oferecem o chá de Santo Daime por R$ 180, enquanto em uma igreja daimista, você não pagaria mais do que R$ 20 como ajuda de custo. Saindo um pouco de Uberaba, a elitização do bem-estar e o comércio espiritual puderam ser vistos até em uma festa de celebração ao badalado guru Sri Prem Baba, em novembro do ano passado em São Paulo, com área VIP, souvernires, desfile de marcas e camarote a R$ 800. Tal qual são as obras mediúnicas que enriquecem a família Gasparetto enquanto, voltando para nosso quintal, um tal de Chico Xavier nunca pôs a mão no dinheiro das 45 milhões de cópias vendidas de seus 458 livros. São muitos números. Mas o que importa são as pessoas por trás e atrás deles.

(Foto: Divulgação)

Tomar de empréstimo a espiritualidade para vender produtos e serviços é oportunismo claro, mas cegado pela crença dos seguidores. Sou espírita com doses misturadas de várias filosofias. Como tal, sei que estou cometendo o erro de julgar o livre-arbítrio. Já diz a máxima: ‘Se apontamos um dedo para alguém, cinco estão apontados para nós”.  Então busco estender a mão inteira para cumprimentar quem pensa de forma diferente e conversarmos sobre.

A você que tirou alguns minutos para ler este artigo sem custo, gratidão!

 

Gustavo Pires é Redator Publicitário, cidadão incomodado e motivado a escrever para gerar reflexão e qualquer mínima mudança de atitude.

 

 

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