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15 de maio de 2018 | 13h 28
O desprezo dos consultores de marketing pelo trabalho das agências de publicidade do interior
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Redação JC
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Publicado por: Redação JC

Ainda no banco da faculdade, assisti a uma palestra de um bam bam bam do marketing com passagens pela Nike e Coca-Cola voltada para estudantes de administração. Em certo momento, disse ele:

- Os publicitários levam a fama, mas não fazem nada. Eles só criam o que a gente manda. 

Levantei meu dedinho de jovem impetuoso, consegui algum espaço e indaguei:

- Acho que você não sabe, mas tem uma turma de publicidade e propaganda aqui. Ou nossos professores estão nos ensinando errado ou as coisas não são bem assim como você diz.

Com o burburinho instalado, nossa professora também se manifestou sobre o conteúdo do curso e, mais uma vez, foi rebatida por ele:

- Se eu fosse diretor do curso te demitira pelo que disse.

- Se eu não te respondesse é que eu seria demitida! – encerrou o assunto.

Mas essa ilustrada relação entre marketing e agência não é um assunto encerrado, e sim, cerrado. Em quase todas as experiências que tive com consultores, os perfis são semelhantes. Geralmente vindos dos grandes centros, trazem, sem dúvida, uma bagagem admirável e coleção de cases de sucesso. A diferença está no olhar sobre o trabalho de agências de publicidade do interior. Seu currículo invejável e vocabulário americanizado é um aval de luxo para os clientes e, como consequência, chegam dando carteirada.

 

São profissionais caros, contratados geralmente para soluções administrativas no marketing e que, para mostrar que o investimento vale a pena, dão como primeiro passo, reduzir a cotação de tudo que foi feito até então. Não importa se a agência atende o cliente desde que ele abriu suas portas. Anos de trabalho consistente, da criação do logotipo à construção de uma imagem sólida e números notáveis vão para o arquivo. Um rebranding com estudo profundo da realidade do nosso mercado e conversão em resultados imediatos parece soar mera sorte.

Seria sorte ter um profissional de tamanha qualificação trabalhando em conjunto com a agência. Sua visão expandida de mercado deveria exponenciar resultados, mas com um fundamento básico: conhecer a realidade do nosso mercado. Digo nosso porque a criatividade regional tem peculiaridades. Um carro de som pode dar mais resultado na periferia que uma inserção na TV. E o costume dos consultores afamados com as verbas afortunadas das grandes agências pode cegá-los. Aqui não temos milhões, nem Brumar ou globais. Mas milhões de vezes, temos mil e duzentos reais para produzir um filme. Vinte mil para uma campanha incluindo mídia de massa. E para ordenhar leite de orçamentos tão secos, há de se aprimorar parcerias com fornecedores e veículos e desenvolver, em conjunto, uma linguagem capaz de suprir a carência de produção. Isso sim é um desafio para a criatividade.

 

O resultado dessa equação desequilibrada é o desprezo pelo trabalho e conhecimento da agência, tanto do cliente quanto do mercado, perda de identidade institucional e quebra da relação de confiança há anos estabelecida. As crias das metrópoles não apreciam o que cria a maioria dos publicitários brasileiros, ou seja, os que atuam em agências do interior que movimentam boa parte dos 134 bilhões investidos em publicidade só em 2017. Quem cria para o interior leva anos de aprendizado e desapego para entender que Cannes não é o fim do arco-íris. E para os consultores, uma modesta dica: há vida inteligente fora de São Paulo.

 

 

 

Gustavo Pires / Redator e Planner com foco em Criatividade Regional em Uberaba MG 

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